O SUS que não se vê… Na Tevê.
Em abril de 2011 saiu na revista RADIS da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) um interessante artigo, intitulado “ O SUS que não se vê.”. O texto foi elaborado a partir de análise de resultados de pesquisa feita pelo IPEA, com usuários e não usuários do SUS, que demonstraram a maior insatisfação com o sistema pelos não usuários, ou melhor, que não se reconheceram como tal. Explique-se: os indivíduos que se auto-intitularam como “não usuários”, desconheciam que muitas vezes utilizavam serviços que o SUS oferece, sem sabê-lo que são do SUS. Já, “A pesquisa do Ipea demonstrou que a avaliação positiva do SUS se dá por quem utiliza os serviços assistenciais”, “Vivemos no Brasil um dilema ético: as pessoas que trabalham e que opinam não são usuárias do sistema, ou melhor, não se reconhecem como tais”,. Em países onde há sistemas universais, como Canadá e Inglaterra há crises e debates, mas as pessoas que criticam são e fazem questão de ser usuárias de seus sistemas públicos. Os gastos e a gestão da assistência médica hospitalar, são o que normalmente chamam a atenção dos médicos, da população e da mídia.
Poucos sabem que o Sistema Único de Saúde está presente nos três níveis de atenção: Federal (M.S), Estadual ( Secretarias Estaduais de Saúde) e Municipal (Secretarias Municipais de saúde), estas últimas a principal executora das ações de saúde. O SUS inclui: vigilância em saúde, (controle e erradicação de doenças, vigilância sanitária e epidemiológica e vigilância ambiental) além da vacinação universal, estratégia de saúde da família, farmácia popular, dispensa de medicamentos especiais e administração de hemocentros, Serviço de Atenção Municipal de Urgência (SAMU), Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e toda a rede Postos de Saúde espalhados pelos mais de 5 mil municípios brasileiros. Em consonância com os Serviços dos SUS existe o Sistema Nacional de Laboratórios de Saúde Pública – SISLAB, um conjunto de redes nacionais de laboratórios, organizadas em sub-redes, por agravos ou programas, de forma hierarquizada por grau de complexidade das atividades relacionadas à vigilância epidemiológica, vigilância ambiental em saúde, vigilância sanitária e assistência médica. (art. 1º Port. 2.031, de 23/09/04)
Mas, será que existe no país quem nunca tenha utilizado o SUS? O que os resultados da pesquisa indicaram, indiretamente, é que boa parte dos brasileiros desconhece que o SUS não se restringe ao atendimento prestado em hospitais e/ou em centros e/ou postos de saúde e que, o controle a eliminação ou a erradicação de doenças da população é de responsabilidade do SUS. Também desconhecem que por meio da atenção básica foi possível atingir coberturas vacinais e de pré-natal que se aproximam da universalidade. “A pesquisa do Ipea demonstrou que a avaliação positiva do SUS se dá por quem utiliza os serviços assistenciais”,
Além do que não se vê, há o SUS que se vê, mas não se “enxerga”. Ou seja, há reações surpreendentes quando se comenta que a realização de transplantes somente é possível porque existe o SUS. Que não há custo algum para o paciente, qualquer que seja sua classe social? Imagine-se o caos ético que provocaria a necessidade de pagamento por transplante. No entanto, o custo existe para o Sistema, mas o benefício é incomensurável. Vale a pena esmiuçar-se alguns dados. A fonte é www.datasus.gov.br .
No ano de 2012 foram realizados no Brasil, 13.754 transplantes ), a um custo de R$ 384.328.381,00,( custo médio de R$ 27.493,00 ) enquanto o gasto total com todos os procedimentos hospitalares, clínicos e cirúrgicos ( 11.092.589 procedimentos) foi de R$ 11.656.121.321,77 ( custo médio de R$ 1.050,80). A tabela a seguir especifica a alta complexidade desses procedimentos:
Total de transplantes, realizados no Brasil e respectivo custo em 2012
|
TIPO DE TRANSPLANTE |
Total |
Custo em R$ |
|
TRANSPLANTE ALOGÊNICO DE CÉLULAS-TRONCO HEMATOPOÉTICAS |
645 |
46.068.452,73 |
|
TRANSPLANTE AUTOGÊNICO DE CÉLULAS-TRONCO HEMATOPOÉTICAS |
1.024 |
27.060.765,39 |
|
TRANSPLANTE DE CORNEA |
4.402 |
8.921.293,87 |
|
TRANSPLANTE DE ESCLERA |
25 |
295.563,52 |
|
TRANSPLANTE DE CORAÇÃO |
178 |
7.552.448,83 |
|
TRANSPLANTE DE FÍGADO (ÓRGÃO DE DOADOR VIVO) |
76 |
96.901.703,51 |
|
TRANSPLANTE DE PÂNCREAS |
31 |
1.335.180,42 |
|
TRANSPLANTE DE PULMÃO UNILATERAL |
25 |
1.293.289,36 |
|
TRANSPLANTE DE RIM |
4640 |
139.588.651,09 |
|
TRANSPLANTE SIMULTÂNEO DE PANCREAS E RIM |
115 |
6.887.577,65 |
|
TRANSPLANTE DE PULMÃO BILATERAL |
30 |
2.116.598,85 |
|
Total transplantes |
11191 |
338.021.525,22 |
|
TRATAMENTO DE INTERCORRÊNCIAS PÓS TRANSPLANTE |
24.102 |
46.306.856,09 |
|
TOTAL |
35.293 |
384.328.381,31 |
Fonte: www.datasus.org
Aí está uma informação que dificilmente aparecerá na TV ou em outros veículos midiáticos. É notório que imagens e informações divulgadas pela mídia sobre o SUS estão comumente associadas “às mazelas e dificuldades do setor, quase sempre a partir de uma suposta ineficiência do Estado, incompetência das autoridades ou dos profissionais da área”.
Airton Fischmann é Médico, especialista e mestre em Saúde Pública pela USP, Ex consultor da Organização Panamericana de Saúde e Médico aposentado da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul.
Reproduzido do blog Imagem Política





