Desigualdade em posições de liderança e o impacto da maternidade foram as principais pautas do evento
Na última sexta-feira, 20/10, dentro da programação do 3º Congresso UFCSPA, a mesa-redonda "Mulheres na Ciência" reuniu no Salão Nobre as pesquisadoras Márcia Barbosa e Fernanda Staniscuaski, ambas da UFRGS, para um debate sobre a presença e desafios das mulheres no mundo científico. A mesa teve mediação da professora Adriana Seixas.
Márcia Barbosa, ao iniciar sua apresentação, se declarou: "Adoro ciência porque ciência tem método"! Ela introduziu o método dos 4Es (evidência, eficiência, equidade e empatia) como uma base para entender e reverter o quadro desigual de gênero na ciência. Ela exibiu dados que mostram a abissal diferença entre as presenças masculinas e femininas em posições de liderança e gestão em universidades e instituições de educação e pesquisa. “A concepção política de que mulher não serve para liderança mantém essa realidade”, ela afirma.
Márcia também citou pesquisas que demonstram que a diversidade no cenário científico conduz a um maior desenvolvimento e geração de capital, além de destacar que a inclusão de mais mulheres na ciência leva a resultados mais disruptivos. Isso se deve ao fato de que as pesquisadoras sentem a necessidade de compensar suas situações de desvantagem. Para essa compensação, as mulheres se deparam com desafios que compreendem estereótipos introjetados desde muito cedo na criação de crianças e preconceitos que solidificam inseguranças nas meninas. Para superar esses obstáculos, políticas e iniciativas de impulsionamento são determinantes.
Sobre empatia, Márcia aponta que ao longo da formação, os homens tendem a perder a capacidade de se colocar no lugar do outro, o que contribui para a ocorrência de casos de assédio moral e sexual, uma realidade que precisa ser combatida com urgência.
Fernanda Staniscuaski integra o Movimento Parent In Science, uma iniciativa destinada a conscientizar sobre a realidade dos cientistas pais e mães, combater preconceitos e promover políticas de apoio. Ela trouxe a importância de discutir a parentalidade na ciência. Fernanda aponta para a diferença de produtividade entre pesquisadores com e sem filhos. Ao se concentrar na maternidade, Fernanda explica e reforça: “Enquanto a sociedade deposita na mulher o ônus do cuidado, nós vamos falar sobre mães”. A pesquisadora também rebate algumas falas comuns de pessoas que questionam e resistem a esse debate: “Sim, foi minha escolha ter filhos. Mas é justo que eu seja colocada para fora da academia, enquanto homens não são excluídos da academia quando são pais?”.

A palestrante comemorou a recente inclusão da licença-maternidade nos currículos da plataforma Lattes como um avanço significativo. Para além dessa conquista, a cientista elencou outros objetivos almejados para que a academia e a sociedade acolham os “ritmos diferentes de fazer ciência”: que agências de fomento à pesquisa apliquem normas para editais que contemplem a maternidade; medidas compensatórias na avaliação de currículos e em concursos públicos; estágios probatórios e avaliações de desempenho para progressão funcional que considerem os períodos de licença e flexibilização de jornadas de trabalho. Fernanda lembrou, ainda, um avanço em 2023: a Capes permitiu a destinação de verbas para oferecimento de atividades recreativas para crianças em eventos acadêmicos, o que facilita a participação de mães e pais nesses encontros e o enriquecimento dos seus currículos.
Ela terminou sua apresentação enfatizando que são necessárias mudanças permanentes e culturais para combater discriminações no meio acadêmico e científico. Uma simples mas fundamental mudança é na igualdade de tempo e na própria nomenclatura das licenças para mães e pais. O mais adequado seria chamá-las de “licença parental” e educar para o entendimento que a licença é um direito da criança.
Nessa mesma tônica foi a fala da reitora Lucia Pellanda no encerramento da mesa redonda: “Políticas para as mulheres beneficiam toda a sociedade pois criar e educar pessoas é um dever de toda a sociedade”.





