Palestra ocorreu durante a XII Jornada Acadêmica de Física Médica

A UFCSPA recebeu nesta quinta-feira, 5, o físico Walter Mendes Ferreira, primeiro a identificar o acidente com o césio-137 em 1987, em Goiânia. Ele realizou uma palestra durante a XII Jornada Acadêmica de Física Médica, relatando sua versão dos fatos sobre o que foi documentado na série “Emergência Radioativa”, disponibilizada na plataforma Netflix. Walter narrou os acontecimentos, descreveu as dificuldades encontradas e apontou os aprendizados diante do incidente.
O físico contou que grande parte do que foi mostrado na série foi bastante fidedigna à realidade dos acontecimentos. Disse que estava em Goiânia a passeio para visitar os parentes de sua esposa quando foi chamado para investigar um suposto vazamento de radiação que estaria deixando pessoas doentes. Walter afirma que, a princípio, descartou essa possibilidade. Depois, ao utilizar um medidor de radiação para avaliar o objeto que poderia ser a causa do fenômeno, pensou que o equipamento estava quebrado. Foi somente quando soube a origem de onde teria partido o material radioativo — uma clínica de radiologia abandonada — que foi se dar conta da gravidade da situação.
Walter relatou que apenas 19 gramas de césio-137 foram responsáveis por produzir 6 mil toneladas de rejeito radioativo. Foram 249 pessoas contaminadas, sendo que quatro não sobreviveram. Dezenas de ruas, construções e veículos precisaram ser destruídos, reparados ou descontaminados. O solo de diversos locais precisou ser removido e, em algumas áreas, o lençol freático foi afetado, bem como plantas e animais.
No relato do episódio, uma das falas mais marcantes foi sobre a descoberta do cilindro contaminado: “O único detector que tinha era um cintilômetro, um detector muito sensível, robusto, portátil e confiável. Conforme você se aproxima da fonte de radiação, o som aumenta. Então, depois de mais ou menos 60 metros a pé, ele começou a registrar uma contagem. Com 15 mil contagens, mais ou menos, a medida saturou e ele começou a oscilar. A primeira coisa que imaginei foi que o detector estivesse com defeito”. E complementou: “Pegamos outro detector, só que, quando cheguei, aconteceu a mesma coisa: a medida saturou. Nesse exato momento, alguém da vigilância sanitária dizia que uma senhora tinha chamado os bombeiros para retirar o material de lá”. Walter finalizou a história revelando que chegou a tempo de evitar uma tragédia ainda maior: “Eu cheguei exatamente no momento em que aquele bombeiro ia jogar o cilindro com césio no rio”.
A palestra também abordou as ações médicas que precisaram ser realizadas para lidar com um incidente sem precedentes na história mundial, dado que foi o primeiro acidente radioativo ocorrido fora de uma instalação nuclear. Por se tratar de um pó altamente solúvel e fácil de esfarelar, o césio se espalhou rapidamente pelo vento, pela água da chuva, pelas solas de sapatos e pelo transporte público, criando múltiplos focos urbanos de alta radiação. Walter relatou alguns tratamentos utilizados que acabaram virando protocolo para manejo desse tipo de contato, como utilizar vinagre para auxiliar na remoção dos materiais da pele e promover o exercício físico dos pacientes para provocar a eliminação dos resíduos através do suor.
Sobre os aprendizados gerados pelo evento, Walter destaca que muitos dos protocolos hoje utilizados para atendimento de emergências relacionadas à radiação tiveram origem nas ações de combate ao acidente. A legislação para a manutenção de equipamentos com potencial radioativo também foi alterada. O físico também chamou a atenção para a importância do planejamento da comunicação sobre o incidente. Ele relatou que foi fundamental a forma de transmitir as informações técnicas aos jornalistas e de se relacionar com a população afetada, de modo a não provocar pânico, para manter a situação sob controle.
Walter Mendes Ferreira é chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). É formado em Física, com pós-graduação em Proteção Radiológica e Segurança Nuclear pela Universidade de Buenos Aires e mestre em Engenharia Nuclear pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), no Rio de Janeiro. Ele foi a inspiração para o personagem interpretado pelo ator Johnny Massaro na minissérie “Emergência Radioativa”, da Netflix.





