Atividade promovida pela Prograd e DADD reuniu a comunidade acadêmica no Teatro Moacyr Scliar para refletir sobre práticas pedagógicas e transformações no ensino superior

A Pró-Reitoria de Graduação (Prograd) e a Divisão de Aprendizagem e Desenvolvimento Docente (DADD) realizaram, na manhã desta terça-feira, 4 de agosto, a abertura do VII Seminário de Formação Docente no Teatro Moacyr Scliar. O encontro foi dedicado a refletir sobre os processos educativos e formativos, propiciando a troca de saberes e experiências pedagógicas para potencializar a atuação dos professores como agentes de mudança participativa e crítica.
A abertura contou com a manifestação da pró-reitora de Graduação, Marilu Fingenbaum, que deu as boas-vindas aos participantes e destacou a importância da programação para o início do segundo semestre letivo. "As professoras convidadas vão falar sobre temáticas que estão sendo inseridas dentro de um contexto de avaliação do Ministério da Educação e também de preocupações da nossa comunidade docente", ressaltou a pró-reitora, apontando os desafios de inovação e engajamento diante das transformações climáticas, ambientais e da inteligência artificial (IA).

Acessibilidade no ensino superior
A primeira palestra da manhã abordou o tema "O desenho universal para a aprendizagem na formação de professores(as): da investigação às práticas inclusivas", ministrada pela professora Enicéia Gonçalves Mendes, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A docente explicou que a motivação de sua pesquisa surgiu da necessidade de favorecer o acesso e a permanência de estudantes com deficiência, buscando garantir o direito à aprendizagem. Ela reforçou que as abordagens universalistas buscam superar a lógica remediativa do modelo clínico e dos atendimentos segregados.
Conforme Enicéia, a literatura e a prática demonstram a existência de três grandes grupos de estudantes no contexto do suporte educacional. O grupo A representa cerca de 80% dos alunos, cujas dificuldades são leves e podem ser resolvidas com a oferta de um ensino acessível e de qualidade para todos. Já o grupo B reúne 15% dos estudantes, que necessitam de apoios que extrapolam o currículo padrão, enquanto o grupo C compreende 5% dos alunos, que exigem atendimentos intensivos e intersetoriais.
Para estruturar essa assistência, a professora destacou a relevância do Sistema de Apoio Multicamadas, no qual se insere o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA). Ela ressaltou que a prioridade institucional deve ser o aprimoramento das intervenções universais direcionadas a toda a comunidade acadêmica. "Se a gente fizer um currículo bom, se a gente fizer uma versão de um bom ensino, a gente resolve os problemas sem precisar remediar, sem precisar adaptar", afirmou a palestrante.
Aplicado ao ensino superior, o DUA propõe o planejamento pedagógico baseado em três redes neurais: engajamento, representação e ação/expressão. Enicéia defendeu o uso de recursos diversificados, como vídeos, infográficos e materiais digitais, além do incentivo ao aprendizado cooperativo e de múltiplos instrumentos de avaliação. Com essa abordagem, a docente pontuou a possibilidade de romper com padrões focados exclusivamente na memorização ou na prova tradicional.
Na visão da pesquisadora, a diversidade deve ser a regra no ambiente universitário, exigindo a substituição gradual de métodos instrucionais padronizados por práticas flexíveis. "Quanto mais as estratégias universalistas forem aplicadas, desde o princípio, menor será a necessidade para haver acomodações, adaptações, medidas específicas para determinados estudantes", concluiu Enicéia.

Desafios da IA aos professores universitários
Na sequência, a professora Madalena Patrício, da Universidade de Lisboa, proferiu a palestra "Ensino na Saúde: desafios e perspectivas em um mundo em constante transformação". A docente caracterizou a inteligência artificial como uma realidade inevitável, destacando que ela já impacta a forma como alunos estudam e clínicos tomam decisões. Para a palestrante, a ausência de orientação e diretrizes institucionais representa o verdadeiro risco diante desse avanço tecnológico.
Madalena ressaltou que a tecnologia não transforma a educação de forma isolada, cabendo às instituições liderar esse processo com base em seus valores fundamentais. Ela ressaltou a importância de docentes, estudantes e futuros médicos atuarem com responsabilidade no uso dessas ferramentas. "A inteligência artificial muda o contexto, mas não substitui a missão das escolas", declarou a pesquisadora.
Para orientar a atuação das faculdades e universidades, a palestrante apresentou a necessidade de trabalhar com três dimensões centrais: Integração, Sustentabilidade e Readiness (preparação). Esses aspectos envolvem temas como a governança, a avaliação e a incerteza ética em torno da autoria e privacidade, assim como a necessidade de capacitar a comunidade para a análise crítica. A professora frisou que a inovação tecnológica sem um embasamento ético consistente corre o risco de perder sua direção pedagógica.
A docente também pontuou que, embora a tecnologia traga celeridade e recursos de aprendizagem adaptativa, a relação humana e o juízo clínico permanecem insubstituíveis na área da saúde. Ela enfatizou que os professores continuam sendo líderes epistemológicos essenciais para moldar a identidade profissional dos estudantes. "A tecnologia pode tornar-se mais inteligente, mas o profissional, o futuro médico, tem que se tornar mais humano", sintetizou Madalena.
Em sua reflexão final, a professora de Lisboa encorajou os docentes a utilizarem a inteligência artificial com propósito e senso crítico, superando inseguranças e integrando a ferramenta na preparação de aulas e no acompanhamento de tarefas. Ela defendeu que os profissionais desenvolvam o raciocínio ético e a empatia para manter o foco no cuidado ao paciente. "A questão já não é usar ou não usar, ela está lá. É usar com propósito, é usar com limites e é usar com responsabilidade", enfatizou.
>> A programação do VII Seminário de Formação Docente segue durante a terça-feira, 4, e pode ser conferida aqui.





