Encontro no Salão Nobre reuniu reitoras da UFCSPA e da UFRGS e marcou a abertura de mostra no Museu de Anatomia Humana

O Salão Nobre no Prédio 1 da UFCSPA sediou nesta quinta-feira, 21 de maio, um bate-papo dedicado à relevância da presença feminina no desenvolvimento das ciências. A atividade reuniu as reitoras Jenifer Saffi, da UFCSPA, e Márcia Barbosa, da UFRGS, sob a mediação da professora Andrea Oxley. Promovido pelo Museu de Anatomia da universidade em parceria com a Associação das Mulheres Cirurgiãs UFCSPA, o encontro propôs uma abordagem leve e descontraída com as gestoras de duas das principais instituições de ensino superior do país.
Durante a atividade, a reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, relembrou os desafios enfrentados desde o início de sua trajetória acadêmica na graduação em Física, período no qual percebeu de forma clara as barreiras de gênero e de origem social. "Eu entrei numa sala de aula onde, dos 80 alunos, só oito eram meninas e só eu que formei daquela turma", afirmou a gestora. Ela ressaltou o impacto provocado pelo sistema competitivo da área, apontando que a ausência de professoras em posições de poder e o preconceito velado por vir da escola pública sinalizavam que aquele espaço não era destinado a ela.
Ao expandir sua vivência para o cenário internacional, a dirigente constatou que a desigualdade persistia no exterior, somada a novos recortes de discriminação. "Lá eu cruzava uma outra fronteira, eu era a mulher latina com uma cara de latina", relatou Márcia. Ela mencionou que o sistema opera de maneira a tentar deslegitimar as conquistas das mulheres e exemplificou essa postura competitiva ao citar um episódio no qual, após vencer um debate técnico com a melhor evidência, ouviu de um colega uma justificativa machista.
A reitora da UFRGS também trouxe dados empíricos para ilustrar como a sociedade e a academia avaliam de forma assimétrica os mesmos méritos a depender do gênero. Ela citou uma pesquisa na qual currículos idênticos de assistentes de laboratório foram enviados para avaliação, sendo que a metade com o nome masculino recebeu propostas de remuneração muito mais elevadas. "Isso mede como a sociedade olha diferente se uma coisa vem de um homem ou se vem de uma mulher", avaliou a professora.
Ao abordar as ações de gestão, Márcia enfatizou a necessidade de criar ambientes de acolhimento institucionais e combater de forma ativa o assédio e a misoginia. Ela mencionou a importância de iniciativas como a campanha do Banco Vermelho e a criação de cursos educacionais sobre feminismo para transformar a cultura acadêmica e assegurar a proteção de estudantes, técnicas e docentes. "A violência contra a mulher tem outra cara, e a gente tem que mudar isso", defendeu, destacando ainda que as redes de mentoria e a mobilização constante são os caminhos fundamentais para que mais mulheres ocupem cargos diretivos.

A reitora da UFCSPA, Jenifer Saffi, iniciou sua intervenção manifestando gratidão e reconhecendo o legado das lideranças que a antecederam na instituição. Ela prestou uma homenagem à ex-reitora Miriam da Costa Oliveira, qualificando-a como uma visionária fundamental para a consolidação da universidade. "Se não fossem mulheres com esse seu espírito e essa sua coragem, nada disso estaria acontecendo", ressaltou Jenifer, manifestando também sua satisfação em ver uma plateia composta tanto por mulheres quanto por colegas e alunos homens na defesa desse espaço.
A gestora mencionou dados de um artigo publicado em 2025 para evidenciar os obstáculos enfrentados pelas mulheres na produção científica. O estudo analisou mais de 20 mil publicações do PubMed e revelou que artigos conduzidos por pesquisadoras, como primeira ou última autora, levam de 15 a 20 dias a mais nas revisões pelos pares em comparação com trabalhos liderados por homens. A gestora defendeu que a ocupação de espaços de liderança por mulheres é essencial para transformar esse panorama e modificar o olhar dentro das instituições.
Ao abordar a realidade da UFCSPA, a dirigente explicou que o corpo social da instituição é composto por 70% de mulheres entre docentes, técnicas e estudantes. Ela lembrou que, embora a presença feminina seja expressiva nas salas de aula e nos laboratórios da área da saúde, o fenômeno conhecido como "teto de vidro" se manifesta à medida que a carreira acadêmica avança em direção aos cargos mais elevados e às bolsas de produtividade. No âmbito das políticas afirmativas da universidade, Jenifer salientou o impacto positivo de iniciativas destinadas a qualificar a infraestrutura para as mulheres da comunidade, como uma sala de apoio à amamentação e a concessão de bolsas voltadas a ações de inclusão.

A ex-reitora Miriam da Costa Oliveira também compartilhou suas vivências com o público e rememorou o início de sua trajetória, marcada pela origem humilde e pelo exemplo de trabalho recebido dos pais. Ela ingressou no curso de Medicina aos 17 anos e relatou um episódio de discriminação de gênero que enfrentou logo após a formatura, durante o processo de seleção para a residência médica em endocrinologia.
Miriam também detalhou sua progressão na carreira acadêmica, na qual realizou mestrado, doutorado e livre-docência antes de assumir papéis na gestão a partir de 1997. Ela foi convidada para ser pró-diretora de desenvolvimento na antiga Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre e, junto com uma servidora técnica, escreveu o projeto que transformou a faculdade em universidade. Ela também exerceu os cargos de vice-diretora, diretora e tornou-se a primeira reitora da UFCSPA, além de ter sido eleita a primeira mulher presidente da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina.
Após o encerramento do painel, ocorreu a abertura oficial da exposição Mulheres na Ciência: Legado e Inovação. A mostra busca resgatar trajetórias inspiradoras, celebrar o conhecimento produzido por pesquisadoras e aproximar o público do impacto feminino na construção do saber científico. A visitação fica aberta ao público no Museu de Anatomia Humana, localizado no quarto andar do Prédio 2, e pode ser realizada de acordo com o horário regular de funcionamento do espaço.





