Levantamento revela como o uso de deepfakes e promessas de curas milagrosas desafiam a segurança de pacientes e a credibilidade científica
O 1º Panorama da Desinformação no Brasil, lançado pelo Observatório Lupa em fevereiro de 2026, revela uma mudança estrutural no ecossistema de notícias falsas. O documento inaugura uma série histórica inédita que compara dados entre anos eleitorais e não eleitorais para subsidiar pesquisadores e formuladores de políticas públicas. De acordo com o relatório, a inteligência artificial (IA), que em 2024 era usada majoritariamente para golpes digitais, passou a ser empregada de forma estratégica como arma política. Em 2025, quase 45% dos conteúdos produzidos com essa tecnologia apresentavam viés ideológico, um salto considerável em relação aos 33% registrados no ano anterior.
A coordenadora da Assessoria Especial de Comunicação Social da UFCSPA, professora Janine Bargas, reforça que o fenômeno da desinformação vai além da fabricação de mentiras deliberadas. "É importante a gente considerar que a desinformação não se trata apenas de conteúdos fabricados. A desinformação também pode ocorrer com conteúdos desatualizados, imprecisos, fora de contexto e, claro, também com informações manipuladas", esclarece. Segundo a coordenadora, esse cenário é agravado pelo uso da inteligência artificial, especialmente no rastro de eventos de grande repercussão, conforme evidenciado pelos dados do Observatório Lupa.
Em entrevista, a analista da Lupa e mestre em jornalismo de dados, Beatriz Farrugia, explica que as deepfakes de saúde estão se tornando rotina ao utilizarem rostos de pessoas famosas para garantir credibilidade. Um dos casos mais recorrentes é o uso da imagem do médico Drauzio Varella para promover falsas curas e medicamentos milagrosos em redes sociais. Para a especialista, a educação do público deve ser feita por meio de campanhas que mostrem exemplos reais dessas manipulações, alertando sobre os riscos de comprar produtos baseados em anúncios digitais suspeitos.
A análise regional do relatório também destaca como instituições de vigilância sanitária são alvos de desinformação durante emergências, como ocorreu no episódio de intoxicação por metanol. Beatriz ressalta que grandes picos de notícias falsas acontecem sempre na esteira de crises de grande repercussão, o que exige monitoramento constante para identificar narrativas desonestas com agilidade. "Isso nos ensina que precisamos ter um monitoramento constante durante e após os grandes eventos no Brasil para identificar o mais rápido possível as narrativas desinformativas", afirma a pesquisadora.
A estratégia dos desinformadores envolve o uso de vídeos como "iscas" e textos curtos para ancorar a interpretação do espectador. Na área da saúde, o sucesso dessas peças deve-se ao apelo emocional com promessas de curas garantidas e imediatas, além da promoção de substâncias ditas "naturais". Segundo a analista, essa combinação funciona como uma "fórmula perfeita" para atrair pessoas em situação de vulnerabilidade clínica ou que buscam tratamentos sem riscos aparentes à saúde.
Para combater esse cenário sem amplificar conteúdos danosos, a Lupa adota o princípio do "Silêncio Estratégico", checando apenas o que atinge um limiar alto de viralização. Beatriz Farrugia esclarece que ignorar um conteúdo menos viral é uma forma de proteger quem ainda não teve contato com a mentira. "A Lupa faz um exercício diário de mensurar perdas e ganhos para a audiência, tomando muito cuidado com cada publicação para evitar amplificar conteúdos danosos", explica, reforçando que o combate exige ações unificadas entre checagem e educação midiática.
Parceria com a Lupa
O enfrentamento desse problema ganha reforço na UFCSPA através de uma parceria oficializada com a agência Lupa, que prevê a inserção de pesquisas da universidade no repositório Achado. O acordo, alinhado à Política de Comunicação da instituição, foca na divulgação científica e na conexão de docentes especialistas com a mídia para esclarecer temas de saúde e ciência.
Neste sentido, a professora Janine Bargas destaca que a produção acadêmica é um pilar central para preencher lacunas informativas da sociedade. "O conteúdo produzido nas universidades tem um papel importantíssimo no combate a essas informações, fornecendo informações precisas, corretas, que têm validação", afirma a coordenadora. Segundo a docente, a parceria com a Lupa visa disseminar o conhecimento gerado no ensino, na pesquisa e na extensão da Federal da Saúde, servindo como fonte segura para a população e auxiliando no desmentido de boatos virais.





