Evento promovido pelo Núcleo de Inclusão e Diversidade reuniu profissionais, docentes e estudantes para tratar de capacitismo, acessibilidade e permanência de PCDs na universidade e nos serviços de saúde

Aconteceu na noite desta terça-feira, 25, o Fórum Núcleo de Inclusão e Diversidade/UFCSPA, organizado para debater caminhos para um formação em saúde mais qualificada e sensível às pessoas com deficiência nos diversos contextos assistenciais. Nas duas mesas de discussão previstas na programação, “O que os profissionais da saúde precisam saber sobre o atendimento às pessoas com deficiência?” e “Como pensar a formação de profissionais da saúde para um atendimento inclusivo?”, acadêmicos e profissionais de saúde trouxeram suas experiências pessoais em diálogo com a temática do fórum.
Enfermeira do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) e integrante da Comissão de Acessibilidade e Mobilidade da instituição (CEPPAM), Andréa Gomes levou ao fórum a combinação entre trajetória profissional e vivência como pessoa com deficiência para discutir o atendimento qualificado a esse público nos serviços de saúde. Ao se dirigir a estudantes e profissionais da saúde, reforçou a centralidade da legislação na prática cotidiana. “É nosso papel, enquanto profissional da saúde, conhecer a lei e fazer ela sair do papel quando a gente tem esse comprometimento”, destacou.
Na discussão sobre capacitismo, a enfermeira aproximou o conceito da realidade dos serviços de saúde e o definiu como um problema estrutural. “Capacitismo consiste na desvalorização e desqualificação das pessoas com deficiência com base no preconceito em relação à capacidade corporal e ou cognitiva”, explicou. Para a palestrante, a luta pelo reconhecimento das pessoas com deficiência “é uma luta coletiva”.
Também integrante da CEPPAM, o farmacêutico André Feltrin compartilhou com o público a própria experiência como pessoa com deficiência para discutir barreiras e adaptações no cuidado em saúde. Ele relatou o impacto do AVC sofrido em 1995, que o levou à condição de cadeirante e a um longo percurso de reabilitação. Na avaliação do farmacêutico, o processo envolve negação inicial, aceitação e reorganização da rotina.
Ao falar das adaptações necessárias, Alberi lembrou que as mudanças começam dentro de casa e se estendem ao ambiente de trabalho. Ele contou que reformou o apartamento por etapas, retirando obstáculos como tapetes e móveis centrais para facilitar a circulação com o triciclo, que utiliza desde que se reconhece como PCD. No hospital, descreveu a luta para tomar posse em concurso público e para garantir condições adequadas de trabalho, como mesa mais alta e espaço para acomodar a cadeira de rodas.
A professora da UFCSPA Cláudia de Souza Libânio, integrante do NID, apresentou ao fórum uma perspectiva que articula arquitetura, administração e saúde para pensar acessibilidade em diferentes escalas, da cidade aos serviços. Ela contou que o percurso acadêmico e familiar a aproximou dos temas de acessibilidade, inclusão, diversidade e equidade, entendendo saúde para além das organizações hospitalares.
Em sua experiência em sala de aula, Cláudia relatou que trabalha o desenvolvimento de empatia com estudantes de diferentes fases do curso, convidando-os a refletir sobre envelhecimento, deficiência e o caráter individualista das formas de viver atuais. Ela contou que costuma provocar a turma com perguntas sobre “como estamos preparando a sociedade para nos receber daqui a um tempo”, especialmente em um país de dimensões continentais e diversidade marcante como o Brasil.
Ao discutir barreiras físicas, comunicacionais e atitudinais, a professora defendeu que muitas mudanças dependem menos de grandes obras e mais de conhecimento, empatia e compromisso cotidiano. “A gente tem que ser agente de mudança”, resumiu, ao apontar que o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes inclusivas contribui para uma sociedade “mais inclusiva, mais diversa, mais equitativa, mais acessível”.
Bianka Rauber, fisioterapeuta do Hospital Sanatório Partenon e pessoa com deficiência visual, trouxe ao fórum uma reflexão que entrelaça sua trajetória pessoal e a formação em saúde. Ao analisar a formação em fisioterapia, Bianka relatou que se percebe um preparo consistente para lidar com deficiências físicas, mas pouca discussão sobre o atendimento a pessoas com outros tipos de deficiência, como surdez ou deficiência visual.
Ela mencionou dúvidas comuns que surgiam ainda na graduação, como “como que eu ensino um determinado exercício para uma pessoa que é surda?” e questionou quantas vezes esse tipo de situação é debatido em sala de aula. “Eu preciso adaptar uma avaliação, eu preciso adaptar um atendimento, eu preciso adaptar uma prescrição”, destacou, ao defender que protocolos “redondinhos” não podem ignorar a necessidade de ajustes para diferentes perfis de usuários.
Bianka também enfatizou o papel da convivência contínua com pessoas com deficiência como estratégia potente de sensibilização. Ela resgatou a experiência escolar no Instituto Santa Luzia, em que turmas antes separadas passaram a reunir crianças com e sem deficiência visual desde o jardim, o que mudou a forma como os colegas ofereciam ajuda e compartilhavam atividades. “Uma das melhores formas de capacitar é ampliar a convivência com pessoas com deficiência”, avaliou, ao relacionar essa vivência com a criação de ambientes universitários mais acolhedores.
Caren Bernardi, docente da UFCSPA e fisioterapeuta, compartilhou uma trajetória marcada pela busca de integração entre saúde, arte e inclusão desde o início da formação acadêmica. Ela relembrou que, ainda na graduação, experiências como a leitura de “Feliz Ano Velho”, de Marcelo Rubens Paiva, e o voluntariado na APAE de Santa Maria a levaram a idealizar projetos que unissem reabilitação com dança para pessoas com deficiência. “Sonhei em ensinar dança para pessoas com deficiência e criei o Movere, grupo que existe até hoje na UFSM”, contou.
Ao analisar os desafios atuais, Caren apontou lacunas históricas na formação de profissionais para o atendimento à diversidade. Ela destacou que, embora exista vasta legislação sobre inclusão, a efetividade da aplicação nas universidades ainda é baixa. “O quanto nós, como docentes, estamos preocupados em discutir esses temas nas nossas disciplinas?”, questionou. Citou ainda a falta de convivência com pessoas com deficiência nos espaços universitários e culturais, o que leva ao desconhecimento das realidades e necessidades desses sujeitos. “A ausência de experiências práticas impacta na construção de competências e na valorização desse olhar pelo aluno”, avaliou.
Defensora da extensão universitária como ferramenta de transformação, Caren relatou projetos em que a convivência entre alunos e pessoas com deficiência provocou mudanças na percepção dos futuros profissionais. Trouxe relatos de estudantes que participaram de projetos de dança inclusiva e ressaltou que iniciativas desse tipo promovem uma “troca horizontal” entre todos os envolvidos. Ao encerrar, Caren sublinhou a importância de garantir acessibilidade plena e protagonismo real nas instituições. “Quando daremos protagonismo para as pessoas com deficiência nos palcos, eventos e atividades da nossa universidade?”, questionou, ao defender que a valorização das capacidades deve ser prática cotidiana, não apenas discurso.
O aluno Rafael Randon, bolsista do Projeto de Iniciação à Docência (PID) "Apoio à Pessoa com Deficiência (Projeto Panapaná)", apresentou a experiência de um espaço dedicado à permanência de estudantes com deficiência na universidade. Ele contextualizou o projeto, que iniciou em setembro de 2022 e funciona vinculado ao NID, destacando que a lei de cotas garante o ingresso de pessoas com deficiência, mas são as barreiras cotidianas que ameaçam a permanência.
O bolsista ressaltou ainda que o Panapaná funciona como espaço de convivência entre pares e como estratégia de formação dos próprios estudantes envolvidos no projeto. "A gente promove eventos, adaptações metodológicas como provas separadas e tempo adicional, além de conteúdos informativos para sensibilização da comunidade", descreveu. Ele mencionou também a importância da formação continuada dos bolsistas, que participam de seminários internos sobre acessibilidade e inclusão. "Tudo isso auxilia, pouquinho em pouquinho, o aluno numa melhor trajetória acadêmica", destacou.
Além do fórum, o NID também atua em outras frentes na Federal da Saúde. Mais informações sobre o grupo podem ser conferidas nesta página.





