Infraestrutura da Central Analítica da universidade viabilizou descoberta da substância ilícita no RS
Uma parceria entre a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e o Instituto-Geral de Perícias (IGP) resultou na identificação inédita de uma nova substância psicoativa (NSP) no estado do Rio Grande do Sul. A substância, chamada ADB-4en-PINACA*, foi encontrada em fragmentos de papel conhecidos como selos ou micropontos, frequentemente associados ao consumo de drogas sintéticas.
A identificação da substância foi iniciada no laboratório da Divisão de Química Forense do instituto gaúcho, que realizou análises de Cromatografia em Fase Gasosa acoplada à Espectrometria de Massas (CG-EM) e por Espectroscopia de Infravermelho com Transformada de Fourier e Refletância Total Atenuada (ATR-FTIR). No entanto, a ausência do padrão analítico da substância nos bancos de dados do IGP e da Polícia Federal exigiu uma análise complementar.
Foi nesse contexto que a UFCSPA desempenhou um papel fundamental ao disponibilizar o parque instrumental do seu Laboratório de Central Analítica. Utilizando a técnica de Cromatografia Líquida Acoplada à Espectrometria de Massas com analisador híbrido Quadrupolo Tempo de Voo (LC-QTOF), os pesquisadores da universidade conseguiram determinar a massa molecular do composto com alta resolução e precisão. Essa análise permitiu confirmar que se tratava da ADB-4en-PINACA.
De acordo com o professor Tiago Franco de Oliveira, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPG-CS) e líder do grupo de pesquisa em espectrometria de massas da UFCSPA, a colaboração foi viabilizada por meio de um Acordo de Cooperação Técnica firmado entre as instituições em 2022, com vigência até 2027. "Esse acordo nos permite não apenas apoiar análises forenses, mas também desenvolver pesquisas conjuntas que reforçam nosso compromisso com a inovação e o avanço científico na área de toxicologia e ciências forenses", destaca.
Tiago também explicou que os canabinoides sintéticos, como a ADB-4en-PINACA, representam um desafio crescente para a saúde pública e a segurança. "Essas substâncias são projetadas para imitar os efeitos do THC, mas frequentemente apresentam efeitos mais intensos e imprevisíveis, o que aumenta os riscos à saúde", afirmou. Ele ainda ressaltou que o termo "maconha sintética" é inadequado para descrever esses compostos, pois pode levar à subestimação dos perigos associados ao seu consumo.
"Enquanto a planta Cannabis sativa contém uma complexa combinação de compostos químicos que interagem de forma equilibrada para produzir seus efeitos, os canabinoides sintéticos são moléculas isoladas e fabricadas artificialmente, sem qualquer relação direta com a estrutura natural da maconha. Isso resulta em efeitos mais potentes e potencialmente perigosos, além de uma toxicidade elevada", acrescenta o docente.
A UFCSPA já colaborou com o IGP em outras ocasiões, como na identificação da ALD-52, uma substância alucinógena semelhante ao LSD detectada pela primeira vez no estado em 2023, e da 25E-NBOH, outra droga sintética desafiadora devido à ausência de padrões analíticos. "Esses casos reforçam a importância das parcerias técnico-científicas para enfrentar os desafios impostos pelas novas substâncias psicoativas", salienta.
Além disso, complementa Tiago, a universidade mantém uma frente ativa de pesquisa voltada à identificação dessas substâncias projetadas para “driblar” os órgãos reguladores. No âmbito do PPG-CS, a iniciativa integra a linha de pesquisa “Desenvolvimento de estratégias para a determinação de xenobióticos por espectrometria de massas”.
"Capacitamos nossos alunos desde a graduação até o doutorado para atuar nessa área crítica, combinando ensino, pesquisa e prática laboratorial", detalha. Segundo o professor, essa formação, em sinergia com a atuação junto ao IGP, prepara os acadêmicos para contribuir diretamente com investigações forenses e o avanço científico no campo da segurança pública.
*Nome técnico da substância: (N-(1-amino-3,3-dimetil-1-oxobutan-2-il)-1-(pent-4-en-1-il)-1H-indazol-3-carboxamida)
Com informações do Instituto Geral de Perícias.
Foto da capa: ASCOM IGP





