Professor Eduardo Bessa, da Universidade de Brasília, trouxe exemplos de uso ético da IA com foco no aprendizado dos alunos
Iniciou nesta terça-feira, 27, no Salão Nobre, o V Seminário de Formação Docente da UFCSPA. A mesa de abertura do encontro contou com a presença da reitora Lucia Pellanda, da pró-reitora de Graduação Márcia Rosa da Costa e da professora da Coordenação de Aprendizagem e Desenvolvimento Docente (CADD) Johanna Billig. A palestra de abertura foi conduzida pelo professor Eduardo Bessa, da Universidade de Brasília, sobre o tema "Vou perder meus alunos para a Inteligência Artificial?".
A pró-reitora de Graduação salientou a importância do evento para o desenvolvimento da UFCSPA: "Uma das principais ações da Prograd é a realização das atividades de formação docente. Entendemos que estes momentos são fundamentais para que nós possamos nos encontrar, trocar ideias, aprimorar os nossos conhecimentos e constituirmos um corpo docente que tem um olhar para a sua própria formação e a dos alunos".
Ao agradecer pela presença dos docentes, a reitora Lucia comemorou a realização de momentos como o proporcionado pelo seminário. "A universidade também é todo o entorno da sala de aula, então encontros assim são importantes para refletir sobre o nosso papel. Se a instituição universitária existe há mais de mil anos, foi porque sempre foi capaz de se reinventar", enfatizou.
Antes de apresentar o palestrante Eduardo Bessa e os novos desafios colocados pela inteligência artificial no contexto universitário, Johanna rememorou outros momentos de superação protagonizados pelos docentes da UFCSPA, como as aulas remotas durante a pandemia e a atualização dos projetos pedagógicos dos cursos. "Bem-vindos a mais uma aventura de aprender, reaprender e, por que não, desaprender", celebrou.
Uso da inteligência artificial em sala de aula
Ao apresentar o assunto de abertura do seminário, Eduardo lembrou algumas inovações anteriores que supostamente também colocariam em xeque o papel do professor, como o Google e a Wikipedia. "Nos anos 2000, poderíamos fazer a mesma pergunta: será que essas ferramentas vão roubar nossos alunos? Hoje percebemos como fomos um pouco ingênuos, pois superamos esses desafios satisfatoriamente na maioria dos casos", afirma.
No caso da inteligência artificial, detalha o professor, é necessária uma adaptação como já ocorrido com outras ferramentas que desafiaram o protagonismo docente em sala de aula. Fazendo um paralelo entre os modelos de linguagem disponíveis atualmente e as calculadoras, Eduardo ressalta que o mais relevante é o uso da ferramenta no momento certo da aprendizagem.
"É importante que os alunos aprendam a fazer as operações, com lápis na mão, entender o que está acontecendo ali. Mas também há momentos em que o resultado final é mais importante que o processo de cálculo, então a professora pode pedir para usarem a calculadora. Vale o mesmo conceito para os geradores de texto [como o ChatGPT]", salienta.
O pesquisador ressalta que o professor não pode deixar de exigir do estudante o desenvolvimento de habilidades fundamentais como produção de textos, organização de ideias, memorização de fatos importantes e seleção de informações. "Em outros momentos é necessário apenas produzir um texto rápido ou organizar ideias que já estejam no papel, e nesses casos a IA é uma excelente forma de aplicação", indica.
Neste cenário, a pergunta que fica aos professores é: como se manter relevante para os alunos? Questionados, os docentes da UFCSPA levantaram qualidades importantes que a inteligência artificial seria incapaz de contemplar, como experiência, empatia, interação social e raciocínio crítico. "São pontos pedagógicos importantes. Mas como que em nossas disciplinas conseguimos instigar os alunos a desenvolverem questões como pensamento crítico e empatia?", provocou.
Trazendo o conceito de infodemia, que representa a sobrecarga de dados à qual estão expostos os estudantes, Eduardo fez uma analogia para ilustrar a diferença dos contextos de aprendizado: "Minha formação, assim como a de muitos aqui, foi em uma época em que o professor e a biblioteca da faculdade eram as únicas fontes de informação, como um bebedouro no meio do deserto". Hoje, pontuou, os alunos estão "mergulhados" em um mar de informações. "Talvez seja necessário parar de dar água, e em vez disso ensinar esse aluno a nadar, com um trabalho de curadoria", sugere.
Para colocar em prática uma postura relevante de ensino, o pesquisador apresentou algumas iniciativas que vem implementando em sua sala de aula na Universidade de Brasília. Um exemplo é a utilização do ChatGPT para produção de textos sobre assuntos relacionados à disciplina, ficando os alunos com a tarefa de avaliar esses conteúdos, corrigindo erros e aperfeiçoando os materiais com base no conhecimento adquirido de fontes confiáveis. "É uma forma de introduzir o pensamento crítico, ensinando os estudantes a usar a inteligência artificial com maior precisão", relata.
Outra aplicação assertiva dos modelos de linguagem está no suporte para a pesquisa bibliográfica. "Por exemplo, pedimos para a IA gerar uma lista de tópicos quentes sobre um assunto e os pontos que poderiam ser abordados em uma revisão, assim como as palavras-chave a serem buscadas em periódicos científicos", explica. A partir das sugestões levantadas, complementa Eduardo, os alunos precisavam fazer pesquisas por conta própria para redigir seus artigos.
Em relação aos aspectos éticos que envolvem o uso da inteligência artificial, o pesquisador indicou a necessidade de uma regulamentação mais efetiva por parte dos governos, especialmente em relação à proteção de dados. Sobre o uso das ferramentas em provas e trabalhos acadêmicos, Eduardo ressaltou que é importante ir além do "vigiar e punir". "É possível incluir no plano de aula o uso ético da IA, inclusive em uma construção conjunta com os alunos. Quando eles participam da tomada de decisão, inclusive têm mais aderência a ela", sugere.
Na parte final da palestra, Eduardo deixou um lembrete aos professores presentes: "Deixamos de ser há muito tempo a única fonte de conhecimento dos nossos alunos, mas não deixamos de ser fontes de inspiração, de pensamento crítico e de empatia. É só pensarmos em como inserir isso na nossa prática cotidiana em sala de aula".
Programação do seminário
As atividades do V Seminário de Formação Docente seguem até 29 de agosto e abordam temas como a inserção da extensão no currículo universitário, inclusão e diversidade e internacionalização em casa. A programação completa do evento pode ser conferida aqui.





