Quase 3 mil casos foram confirmados no início de 2024, índice significativamente mais alto em comparação a anos anteriores

O Rio Grande do Sul enfrenta um aumento preocupante nos casos de dengue no início de 2024, segundo os dados do Painel da Secretaria de Saúde do Estado (SES). Até o momento, quase 3 mil casos foram confirmados, um número significativamente mais alto do que o observado em anos anteriores no mesmo período. A ocorrência de duas mortes relacionadas à doença no início do ano, de um homem de 65 anos e uma mulher de 71 anos, reforça a preocupação de autoridades e profissionais de saúde com a evolução do vírus no estado.

O cenário é acompanhado com atenção pelos professores de Infectologia da UFCSPA Marilia Severo e Paulo Behar. De acordo com os docentes, o aumento súbito de casos sugere uma temporada de transmissão mais intensa, com um possível aumento na incidência de formas graves da doença.

Como ocorre a transmissão

A dengue, assim como outras doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, como zika, chikungunya e febre amarela, segue um ciclo de transmissão que envolve o mosquito, o vírus e o ser humano. Os elementos e a dinâmica do ciclo de transmissão da dengue são detalhados pelos dois especialistas.

A transmissão é iniciada quando o Aedes aegypti pica uma pessoa infectada com o vírus da dengue e, ao se alimentar do sangue, ingere o vírus. "Após isso, o vírus precisa de um tempo para se multiplicar dentro do mosquito, num período chamado de incubação extrínseca, que dura alguns dias", explica Marília. Uma vez que o mosquito está infectado e o vírus se multiplicou, detalha a docente, o mosquito se torna capaz de transmitir o vírus para outras pessoas através de suas picadas.

Quando um mosquito infectado pica uma pessoa saudável, há um período de incubação no humano que pode durar de 4 a 10 dias, durante o qual a pessoa não apresenta sintomas. "Após o período de incubação, a pessoa infectada pode desenvolver sintomas como febre alta, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, dores musculares e articulares, erupções cutâneas, náuseas, entre outros", detalha Paulo.

Razões para o aumento de casos

No contexto nacional, o Brasil ultrapassou meio milhão de casos prováveis de dengue nas primeiras semanas do ano. Em nível regional, o aumento na infestação do mosquito no estado pode ser atribuído a variações climáticas, como períodos mais chuvosos, que favorecem a reprodução do vetor.

"O Aedes aegypti é um mosquito que se reproduz em água parada, preferencialmente limpa, e é encontrado com frequência em áreas urbanas onde há uma abundância de locais propícios para a colocação de seus ovos, como vasos de plantas, pneus velhos, calhas e outros recipientes que podem acumular água", explicam os professores. Além disso, a resistência a inseticidas e a mobilidade humana são fatores que contribuem para a disseminação da doença.

Vacina contra a dengue

Os docentes salientam a priorização da vacina Qdenga como uma das estratégias para conter o avanço do vírus. Desenvolvida pelo laboratório Takeda, o imunizante foi incorporado ao Programa Nacional de Imunizações e começou a ser distribuída pelo Sistema Único de Saúde em fevereiro de 2024. Ao todo, foram selecionadas 37 regiões para a primeira fase da imunização contra a dengue, reunindo 521 municípios.

O grupo prioritário para a vacinação são indivíduos na faixa etária de 10 a 14 anos, que concentram o maior número de hospitalizações por dengue. "Esse grupo foi escolhido por concentrar o maior número de hospitalizações por dengue depois da população idosa, para a qual a vacina não foi autorizada pela Anvisa", detalha Marília.

A prevenção não pode parar

Além da dengue, lembram os professores, o Rio Grande do Sul também pode sofrer com zika, chikungunya e febre amarela. Para combater a proliferação do Aedes aegypti, continuam válidas as recomendações emitidas pelos órgãos de saúde em anos anteriores: a eliminação de possíveis criadouros do mosquito, como objetos que possam acumular água parada, e o uso de repelente e de roupas que cubram a maior parte do corpo são essenciais para interromper o ciclo de transmissão e reduzir a incidência da doença.

"A vacinação também surge como uma ferramenta importante na luta contra a dengue, especialmente entre os grupos mais vulneráveis", reforçam os docentes da UFCSPA.

Foto: Rodrigo Méxas e Raquel Portugal / Acervo Fiocruz Imagens