Em novembro de 2017, ativistas desfraldaram uma bandeira LGBT durante um show de rock num estádio do Cairo e acabaram na cadeia. A banda no palco era o Mashrou' Leila, principal nome da cena indie no Oriente Médio (sim, isso existe!). Ex-estudantes de arquitetura e design da Universidade de Beirute, os membros do Mashrou' Leila são tão multiculturais quanto o próprio Líbano: um é muçulmano, o outro é druso, o terceiro é cristão, e há também um armênio. Em álbuns como Ibn El Leil (2015) e The Beirut School (2019), todos disponíveis no Spotify, eles misturam rock, música eletrônica e elementos tradicionais armênios. As sofisticadas letras do vocalista Hamed Sinno, que canta em árabe e é ativista dos direitos humanos, abordam temas ultra-contemporâneos, como a questão Israel-Palestina, a violência, as armas, a sexualidade no mundo árabe, a liberdade individual e o carcomido sistema político libanês. Por isso, eles foram banidos em muitos países árabes. Mas fazem tours pelo mundo, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa, e também já vieram ao Brasil. Mostram que existe um outro Oriente Médio, para além dos clichês - criativo, moderno, aberto, refinado e ávido por liberdade.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.