André Gide foi um dos autores franceses mais lidos e mais influentes do século XX, e a imagem da sua obra está intimamente associada ao romance O imoralista (1902), baseado nas aventuras amorosas, estéticas e existenciais do próprio André Gide no Norte da África. O culto e rico Michel, narrador protagonista que funciona como duplo de Gide, relata sua doença e sua recuperação durante sua viagem de núpcias com a mulher Marcelline pelo sul da Europa e pela África. No processo, Michel descobre a beleza dos jovens norte-africanos por quem passa a se interessar sexualmente. Despoja-se de tudo o que fazia sua vida e sua educação burguesa: família, religião, propriedade, casamento, cultura, prestígio, convenções sociais. E, no entanto, aproximando-se do despojamento absoluto, Michel se pergunta: de que serve essa liberdade? O que fazer com o desejo liberado? E como coexistir com os outros? Quanto mais cedo lemos esse livro, melhor, e a época de faculdade - uma época de descobertas! - é o momento ideal para nos colocarmos as questões que assombram Michel, duplo também de nós mesmos em nossa busca moderna de autorrealização.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.