Quem diria que cem anos depois do surgimento do fascismo na Itália estaríamos de novo às voltas com esse termo que parecia moribundo? Uma boa maneira de entender o que está em jogo nessa questão é a biografia romanceada do Duce Benito Mussolini: M, o filho do século (Intrínseca, 2020). O livro de Antonio Scurati - que também escreveu um artigo imperdível sobre o coronavírus em Milão - virou best-seller na Europa. Descreve a personalidade magnética e diabólica de Mussolini, mas sobretudo as condições políticas e sociais da ascensão do fascismo na Itália do Pós-Primeira Guerra: a radicalização e a divisão da oposição, o medo do comunismo, a manipulação da mídia, o militarismo, o imperialismo, o culto à violência, a polarização da sociedade, a criação das milícias, a condescendência dos políticos e intelectuais liberais que se aliam ao fascismo na crença de poderem manipular a fera... A narrativa vai de 1919 a 1925, e sabemos o que virá depois: a consolidação de um regime autoritário, a parceria com o nazismo, as leis raciais, a Segunda Guerra Mundial, por fim a derrocada de Mussolini e a exposição de seu cadáver à fúria popular em Milão, em 1945. Virá dessa história alguma coisa ainda?

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.