Entre 1940 e 1941, é preso em um gulag, a poucos quilômetros de Moscou, um grupo de oficiais poloneses resistentes à invasão conjunta da Polônia por Hitler e Stálin. E, para sobreviver à rotina inumana no campo de trabalhos forçados soviético, esses oficiais organizam palestras culturais. Um deles é Józef Czapski, também pintor e escritor, que fala sobre a literatura francesa e em especial sobre Em busca do tempo perdido, o monumental ciclo de romances de Marcel Proust. Com um detalhe: Czapski não tinha os livros em mãos. Nem poderia ter, pois a obra era perseguida na URSS como "literatura burguesa decadente". E então Czapski comenta Proust de memória, por vezes citando trechos inteiros, e em francês. Essas conferências foram traduzidas no Brasil sob o título Proust contra a degradação (Ayiné, 2018), depois de sua publicação em polonês no pós-Segunda Guerra e em francês nos anos 80. Além de ser uma introdução maravilhosa ao universo proustiano, o livro impressiona como testemunho da força da literatura, mesmo em meio ao frio, à fome e à desolação de um campo de prisioneiros do século XX.

Rodrigo de Lemos é professor de língua e cultura francesa do DEH/UFCSPA.