As histórias que compõe Quarto de despejo: diário de uma favelada (Ática, 2014) foram escritas entre 1955-59, sendo publicadas inicialmente nos jornais Folha da Noite e O Cruzeiro entre 1958-60. Em 1993, o diário de Maria Carolina de Jesus - mãe solo de três filhos e moradora da favela Canindé (a primeira grande favela de São Paulo, hoje ocupada pela Marginal Tietê) – foi republicado como livro, e hoje já está na 11ª impressão da 10ª edição. Mas por que o diário de uma favelada - cheio de erros ortográficos, sem nenhum glamour nem príncipe encantado - impõe presença na literatura brasileira até hoje? Porque a fome, a miséria, a solidão em meio à multidão, mas também a força inacreditável de uma mãe e a sabedoria dos humildes estão além do tempo. E porque ainda temos a capacidade de nos emocionar com coisas simples, como um raio de sol, uma mão estendida, o canto de um pássaro, um prato de comida e o sorriso de um amigo.

Ana Boff de Godoy é professora de humanidades da UFCSPA.