Projeto vencedor da chamada da L'Oréal Brasil desenvolve tecidos com diferentes fototipos para testes de segurança e cicatrização

Pesquisadora Liliana Ivet Sous Naasani, egressa do PPG-Ciências da Saúde

Uma pesquisa conduzida no Laboratório de Biologia Celular da UFCSPA propõe romper com a histórica sub-representação de parcelas expressivas da população na dermatologia. Intitulado “Modelos tridimensionais de pele humana com diferentes fototipos para pesquisa dermatológica inclusiva e testes de segurança”, o projeto foi um dos vencedores da 2ª Edição do Prêmio Dermatologia Mais Inclusiva da L'Oréal Brasil. A iniciativa desenvolve um substituto cutâneo em três dimensões estruturado a partir de membrana amniótica humana descelularizada e células isoladas de descarte cirúrgico hospitalar, focando com especial atenção as características biológicas da pele negra e parda.

A proposta nasceu da constatação de que a maioria dos ensaios dermatológicos e cosméticos convencionais ainda adota modelos celulares baseados quase exclusivamente em peles claras. Essa carência metodológica compromete a compreensão exata sobre variações na barreira cutânea, na inflamação, nos processos de cicatrização e na pigmentação, elementos que afetam diretamente o diagnóstico e a eficácia de tratamentos em um país miscigenado. "A falta de modelos inclusivos limita o entendimento das particularidades biológicas desses grupos e impacta a segurança de produtos que chegam ao mercado", pontua a coordenadora do estudo, Liliana Ivet Sous Naasani.

A trajetória acadêmica da pesquisadora converge para o amadurecimento dessa biotecnologia. Bióloga formada na Venezuela, onde iniciou pesquisas com suportes para regeneração tecidual, Liliana realizou mestrado e doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UFCSPA, sob orientação da professora Márcia Rosângela Wink. Ao longo de sua pós-graduação, que incluiu estágio de pesquisa na Universidade Laval, no Canadá, a cientista acumulou reconhecimentos como a indicação ao Prêmio CAPES de Tese e o desenvolvimento de métodos patenteados para manipulação de tecidos biológicos. Atualmente atuando como pesquisadora EXP-A na universidade, ela conduz a investigação com financiamento do CNPq, por meio da chamada voltada a Jovens Doutores em Genômica e Saúde Pública de Precisão.

Na prática laboratorial, a construção do tecido artificial exige etapas minuciosas de cultivo celular e bioengenharia. Amostras de tecido obtidas em procedimentos da Unidade de Cirurgia Plástica da Santa Casa de Porto Alegre passam por processos de isolamento para a extração primária de queratinócitos, melanócitos e células estromais mesenquimais. Em seguida, essas linhagens são semeadas sobre a membrana amniótica previamente descelularizada, que atua como uma matriz biológica tridimensional, sendo cultivadas em interface ar-líquido para mimetizar com fidelidade a arquitetura do tecido cutâneo real.

O grande diferencial do modelo em relação a outros equivalentes descritos na literatura científica é a incorporação funcional de melanócitos correspondentes a múltiplos fototipos. "A inclusão dessas células pigmentares oferece uma vantagem única para investigar os mecanismos reais de pigmentação celular, cicatrização e proteção de barreira de forma muito mais precisa e representativa", destaca a pesquisadora. A integridade estrutural e a resposta fisiológica das camadas epidérmicas e dérmicas são então caracterizadas por análises histológicas detalhadas e pela verificação da expressão de proteínas estruturais cutâneas.

Além de garantir maior equidade em saúde pública e refinar o desenvolvimento de produtos para as particularidades da população brasileira, a plataforma oferece uma alternativa ao uso de animais em testes de segurança e eficácia dermatológica, cosmética e química. A versatilidade dos substitutos desenvolvidos com membrana amniótica também viabiliza combinações com outras células ou nanopartículas, abrindo novas frentes na engenharia tecidual para o aprofundamento de estudos sobre cicatrização e avaliação de distúrbios pigmentares.