Comunicação Inova UFCSPA

A Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) recebeu a concessão da patente de invenção "Plataforma para tratamento de resíduos sólidos e semissólidos por insetos" (BR 10 2025 021289 7). Esta é a primeira Patente Verde da UFCSPA concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Por estar enquadrada na modalidade de patente verde, destinada a tecnologias que geram benefícios ambientais, a invenção foi analisada por meio do trâmite prioritário do INPI, o que contribuiu para a agilidade do processo. Depositado em outubro de 2025, o pedido foi concedido em junho de 2026, totalizando menos de dez meses entre o depósito, a análise e a concessão da patente.
A tecnologia foi desenvolvida pela professora Danielle da Silva Trentin, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Biociências da UFCSPA, em parceria com a pesquisadora de pós-doutorado da UFCSPA Gabriela Messias Miranda Menezes; a pesquisadora Andressa Fernandes Pivato, egressa do Programa de Pós-Graduação em Biociências da UFCSPA; a professora Rosane Angélica Ligabue, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS); o professor Alexandre José Macedo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); e a professora Jeane Estela Ayres de Lima, atualmente vinculada à UFRGS, que integrava a Universidade de Brasília (UnB) à época do desenvolvimento da tecnologia.
A plataforma foi desenvolvida para o tratamento de resíduos sólidos e semissólidos por meio da utilização sequencial de diferentes espécies de insetos em um sistema que opera em etapas realizadas em biorreatores. Ao final do processo, os resíduos tratados são convertidos em biomassa, que pode ser destinada à produção de biofertilizantes, insumos para alimentação animal e outros produtos de interesse. A plataforma é escalável e automatizada, integrando sistemas de alimentação, transporte interno e monitoramento de parâmetros como temperatura, umidade e aeração, com operação em batelada ou em regime contínuo.
Danielle explica que, desde 2014, utiliza o inseto Galleria mellonella como modelo experimental para estudos de infecção. Durante esse trabalho, observou que as larvas consumiam os recipientes plásticos onde eram mantidas. "O que inicialmente parecia apenas um problema de manejo despertou uma pergunta que mudou completamente o rumo da minha pesquisa: como esses animais eram capazes de degradar o plástico?"
A partir dessa observação, o grupo passou a investigar os mecanismos de biodegradação de polímeros por insetos. "Inicialmente demonstramos que as larvas são capazes de biodegradar o polietileno (PE), material utilizado em sacolas plásticas, e identificamos que sua microbiota intestinal e salivar é modulada pela dieta, favorecendo a presença de micro-organismos com potencial biodegradador", explica a professora.
Esses resultados abriram novas perspectivas para estudar a biodegradação de outros materiais, como polipropileno (PP), poliestireno (PS) e resinas acrílicas. Diante do crescente desafio ambiental causado pelo acúmulo de resíduos plásticos, o grupo percebeu que esse conhecimento básico poderia ser transformado em soluções biotecnológicas sustentáveis para o tratamento de resíduos.
Danielle ressalta que a construção dessa tecnologia foi possível graças à combinação entre curiosidade científica, pesquisa interdisciplinar e apoio à inovação. "A aprovação de um projeto pelo Instituto Serrapilheira permitiu explorar uma ideia de alto risco e reunir uma rede de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento. Posteriormente, o apoio da FAPERGS e do CNPq consolidou essa linha de pesquisa e viabilizou estudos sobre os micro-organismos e os metabólitos envolvidos na biodegradação."
Segundo a pesquisadora, o Edital CNPq nº 43/2022 – Chamada Pública CNPq/MCTI/FNDCT/CT-Petro nº 43/2022 – "Combate à poluição no mar e ambientes marinhos causada pelo plástico e seus subprodutos" representou o impulso decisivo para transformar esse conhecimento em uma tecnologia aplicável: o desenvolvimento, em escala laboratorial, de um protótipo de estação de tratamento de resíduos plásticos baseada na utilização sequencial de diferentes espécies de insetos. A proposta busca aumentar a eficiência da biodegradação e, ao mesmo tempo, possibilitar o aproveitamento dos subprodutos gerados, contribuindo para um modelo de economia circular.
Segundo Danielle, as possibilidades de aplicação dessa tecnologia são amplas. "Além de oferecer uma alternativa biotecnológica para o tratamento de resíduos plásticos de difícil reciclagem, ela poderá ser adaptada para a biotransformação de outros resíduos sólidos e semissólidos, como resíduos agrícolas, reduzindo seu impacto ambiental, gerando novos insumos de interesse comercial e estimulando soluções sustentáveis para o gerenciamento de resíduos", explica.
A partir da concessão da patente, o grupo trabalha com a Agência de Inovação (Inova UFCSPA) no processo de licenciamento da plataforma tecnológica, enquanto concentra esforços no aumento do seu grau de maturidade tecnológica. Nesse contexto, a UFCSPA foi contemplada no Edital FAPERGS – Programa de Apoio aos Ecossistemas de Inovação, que disponibilizará recursos para impulsionar o desenvolvimento tecnológico da plataforma e sua aproximação com o mercado. "Nossa expectativa é ampliar o potencial de aplicação dessa tecnologia e contribuir com novas alternativas biotecnológicas para o gerenciamento sustentável de resíduos plásticos", afirma a professora.
O que representa a concessão de uma patente?
Segundo o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), a patente é uma modalidade de proteção da propriedade intelectual destinada a invenções e modelos de utilidade. Após o depósito do pedido, o processo passa por exame técnico que considera critérios previstos em lei, como novidade, atividade inventiva e aplicação industrial. Conforme estabelece a Lei nº 9.279/1996 (Lei da Propriedade Industrial), a concessão indica que o pedido atendeu aos requisitos legais e assegura ao titular direitos sobre a exploração da invenção pelo período previsto na legislação.
Propriedade intelectual na UFCSPA
A concessão da patente passa a integrar o conjunto de ativos de propriedade intelectual da UFCSPA. Ao longo de sua trajetória institucional, a universidade realizou 29 depósitos de patentes. No Brasil, são 24 depósitos junto ao INPI, dos quais 19 permanecem ativos. Entre esses pedidos, cinco receberam concessão.
No cenário internacional, a UFCSPA possui cinco depósitos, incluindo uma patente concedida nos Estados Unidos. O primeiro depósito de patente da universidade junto ao INPI foi realizado em 18 de abril de 2011. O registro mais recente ocorreu em abril de 2026. Além das patentes, a universidade possui 11 programas de computador registrados junto ao INPI entre 2012 e 2025 e dois registros de marca, incluindo a marca institucional da UFCSPA.
A gestão dos ativos de propriedade intelectual da universidade é realizada pela Agência de Inovação (Inova UFCSPA), responsável pelo apoio aos processos relacionados à proteção e à transferência de tecnologias desenvolvidas na instituição.
Para o diretor da Inova UFCSPA, Hélio Hey, a concessão da primeira Patente Verde da UFCSPA representa um marco para a universidade ao demonstrar que o conhecimento produzido pelos pesquisadores pode gerar soluções inovadoras com impacto positivo para a sociedade e para a sustentabilidade. "A proteção dos ativos de propriedade intelectual é fundamental para valorizar a pesquisa, ampliar as oportunidades de transferência de tecnologia e fortalecer a conexão entre a universidade e o setor produtivo. Nesse contexto, a atuação da Inova UFCSPA é estratégica ao apoiar pesquisadores em todo o processo de proteção, gestão e valorização desses ativos, contribuindo para que a inovação gerada na universidade se transforme em desenvolvimento científico, tecnológico, econômico e social", ressalta.
A comunidade acadêmica interessada em proteção da propriedade intelectual e desenvolvimento de ativos tecnológicos, bem como organizações interessadas nas tecnologias desenvolvidas pela UFCSPA, pode buscar orientação junto à Inova UFCSPA.
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