Docente de Infectologia da instituição analisa o impacto da medida e detalha os riscos do vírus

O gabinete do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu na noite de sábado, 16 de maio, uma declaração de "emergência de saúde pública de importância internacional" devido ao novo surto de ebola. O anúncio ocorre em virtude de uma nova onda de contágios causada pelo vírus Bundibugyo, que afeta a República Democrática do Congo e Uganda. A região contabiliza 246 casos suspeitos e 80 supostas mortes.

O professor de Infectologia da UFCSPA, Alessandro Pasqualotto, esclarece que a variante detectada não possui vacina aprovada nem terapia específica estabelecida. "A declaração foi motivada pela ocorrência de um novo surto dessa infecção, a qual rapidamente se espalhou do Congo para Uganda, passando a incluir grandes áreas urbanas e regiões de conflitos armados, em um contexto de um sistema de saúde desestruturado", contextualiza.

Apesar do alerta internacional, Pasqualotto salienta que o Ebola é uma doença geograficamente muito localizada e com mínimo potencial para causar uma pandemia. Diferentemente da influenza, do sarampo e da Covid-19, o vírus não é transmitido pelo ar. O contágio ocorre principalmente por contato direto com sangue, vômitos, diarreia, secreções, tecidos, fluidos corporais ou cadáveres de pessoas infectadas.

"Medidas como isolamento dos casos e uso de equipamentos de proteção individual (EPI) são bastante eficazes no controle de surtos", garante o professor, lembrando que também pode haver introdução zoonótica por contato com animais infectados, especialmente morcegos, considerados o provável reservatório natural.

Para o Brasil, a declaração da OMS não altera a rotina assistencial da maioria dos serviços de saúde, mas aumenta o grau de alerta. O impacto prático consiste em reforçar a vigilância de viajantes procedentes de áreas com transmissão e a suspeição clínica em pacientes com febre e história epidemiológica compatível.

Os protocolos exigem o uso rigoroso de precauções de contato e barreira, além da notificação imediata de casos suspeitos. "O ponto central é perguntar por viagem ou exposição nos últimos 21 dias a áreas com transmissão, contato com caso suspeito ou confirmado, participação em funeral ou exposição a fluidos corporais", esclarece.

O professor explica que o período de incubação do vírus varia de 7 a 21 dias e a pessoa se torna mais contagiosa quando está sintomática, particularmente em fases avançadas da doença. Atualmente, existem anticorpos monoclonais que reduzem a mortalidade, mas eles possuem ação contra a espécie Zaire do Ebola, que não é a envolvida no surto atual.

No cenário causado pela espécie Bundibugyo, o tratamento é essencialmente de suporte, envolvendo hidratação, correção de distúrbios eletrolíticos, suporte hemodinâmico, manejo de sangramentos, tratamento de coinfecções e isolamento. "Para que haja maior chance de sucesso, a terapia deve ser iniciada nos primeiros dias da doença, de modo que se faz importante um rápido diagnóstico", ressalta.

O risco de uma transmissão global sustentada é considerado muito improvável devido às características de infecção do vírus, que exige contato próximo e tende a produzir quadros graves, facilitando a identificação dos pacientes. O maior perigo permanece concentrado nos países afetados e em nações vizinhas, onde há deslocamento populacional, fragilidade de laboratórios e rituais funerários com contato direto com corpos.

"Para outros continentes, o cenário mais provável seria o de eventuais casos importados isolados, os quais podem ser contidos por medidas de vigilância e isolamento", conclui Pasqualotto.

Foto de capa: Daniel Bausch, Division of Viral and Rickettsial Diseases, National Center for Infectious Diseases, CDC (Domínio Público)