Autocaricatura foi descrita pela primeira vez pelo docente da UFCSPA (Crédito: Reprodução Estudo)

Em artigo edição de abril da revista Clinical Anatomy, o professor da UFCSPA Deivis de Campos revelou uma faceta até então inédita da obra de Michelangelo (1475-1564). No texto, o docente descreve a descoberta de uma autocaricatura inserida em um retrato feito em 1525 pelo artista italiano. Na peça, é possível verificar uma figura humana “inclinada” sobre o desenho, um presente destinado a uma amiga próxima de Michelangelo, Vittoria Colonna.

 

“Este retrato está exposto no Museu Britânico, ou seja, não está exatamente no ambiente de pesquisa típico dos estudiosos de Michelangelo”, relata Campos. No texto do artigo, o professor faz uma comparação do desenho com outra representação já conhecida no meio artístico, o desenho que Michelangelo fez de si próprio na Capela Sistina, em 1509. “Detalhes como a silhueta do rosto e o fato daquela obra ser destinada a uma pessoa tão próxima do artista permitem afirmar que não foi por acaso”, detalha.

 

Campos salienta que a redação do artigo foi precedida por um minucioso trabalho de pesquisa com o objetivo de confirmar o ineditismo da descoberta: “Busquei referências em várias fontes, inclusive presencialmente na Casa Buonarroti, o museu da casa da família de Michelangelo na Itália”. Ao constatar que realmente a autocaricatura não estava descrita em nenhum material, o docente submeteu o texto para a Clinical Anatomy: “A aprovação do corpo editorial da revista, que verifica questões como a solidez científica, a relevância, o ineditismo, entre outros detalhes, reforça o mérito da descoberta”.

 

Uma curiosidade histórica relacionada à descoberta é o fato de artistas da época de Michelangelo utilizarem a autocaricatura como uma forma de contornar a proibição da Igreja Católica, que impedia criadores de assinarem suas produções. “Certamente não era este o caso, já que se tratava de um presente pessoal”, explica Campos. Ao olhar atentamente para o desenho, é possível ver que a figura é retratada como se estivesse finalizando a pintura de Vittoria Colonna.

 

Como já constatado em outras ocasiões pelo professor, a obra de Michelangelo se revela ainda capaz de gerar revelações fascinantes com o passar dos séculos. Em 2016, Campos já havia descrito uma série símbolos relacionados à anatomia feminina em afrescos da Capela Sistina e em outros monumentos criados pelo gênio italiano. Como na vez anterior, a nova descoberta foi amplamente divulgada em veículos da imprensa nacional, como nos periódicos O Globo e O Estado de São Paulo, e internacional, como os jornais Corriere della Sera e Daily Mail.