Estudo do Nupen acompanhou mais de 300 crianças em diferentes épocas (Crédito: Ingimage)

Uma pesquisa desenvolvida por acadêmicas do Núcleo de Pesquisa em Nutrição da UFCSPA (Nupen) mostrou a relação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e altos níveis de colesterol em crianças de seis anos. A descoberta foi documentada em artigo premiado no XI Congresso Gaúcho de Atualização em Pediatria, ocorrido em no mês de maio em Porto Alegre.

 

No estudo, foram analisadas mais de 300 crianças em dois momentos de suas vidas, aos três e aos seis anos de idade. A primeira etapa da pesquisa verificou, por meio de entrevistas com os pais, quais alimentos eram consumidos pelos pequenos em um intervalo de 24 horas. Na segunda fase do estudo, as crianças foram submetidas a exames de sangue para verificar os níveis de colesterol total, HDL e LDL, além de triglicerídeos.

 

Os resultados despertaram a atenção das pesquisadoras, que acompanham desde 2008 a coorte (segmento da população estudado durante um determinado período). Mesmo com a pouca idade, as crianças que consumiram maior quantidade de alimentos ultraprocessados já apresentavam níveis mais altos de colesterol em comparação aos pequenos com uma dieta mais natural.

 

“Verificamos que as práticas alimentares já têm impactos importantes no início da vida, provocando alterações clínicas importantes nessas crianças”, detalha Paula Leffa, uma das acadêmicas envolvidas no estudo. As alterações, explicam as pesquisadoras, podem evoluir para problemas de saúde mais graves em longo prazo, como doenças cardiovasculares. “Há mais de quinze anos, praticamente não víamos dados clínicos tão alterados em indivíduos tão jovens. Provavelmente, sem uma intervenção, poderão se tornar adultos dislipidêmicos”, esclarece a doutoranda Julia Valmórbida.

 

Orientações para uma alimentação infantil saudável (Crédito: Página do Nupen no Facebook)

 

Para a coordenadora do Nupen, professora Márcia Vitolo, a descoberta é mais um reforço para a recomendação do núcleo em prol da alimentação saudável desde cedo. “Em nossos estudos podemos verificar que a implementação de hábitos saudáveis, por meio da orientação aos pais, é capaz de promover melhoras em termos de redução de cáries, diminuição da constipação intestinal, alta adiposidade, entre outros impactos na saúde infantil”, salienta a docente.

 

As acadêmicas explicam que o consumo de alimentos ultraprocessados é um hábito verificado com maior frequência em famílias de menor poder aquisitivo. “A literatura da área e estudos feitos no Brasil mostram que este tipo de alimento normalmente tem baixo custo e é de fácil acesso, além de ser mais durável”, explica Paula.

 

O risco, aponta Márcia, é que se tratam de produtos ricos em sal, açúcar, gordura e aditivos não naturais. “A relação entre custo e calorias desses alimentos é muito baixa, diferente dos valores pagos para verduras, legumes e frutas. A carne processada como linguiça e mortadela, por exemplo, é mais barata por quilo em relação à não processada”, compara.

 

Como forma de levar à comunidade uma contribuição para a mudança de hábitos, o Nupen disponibilizou a página “Até dois, doce não”, com diversas informações e dicas para pais e mães que desejam melhorar a alimentação dos pequenos. O site pode ser acessado pelo endereço https://atedoisdocenao.wordpress.com.