Fórum organizado pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aconteceu nesta segunda-feira, 28, no Salão Nobre

A Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre sediou nesta segunda-feira, 28, o Fórum Democrático de Desenvolvimento Regional da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Com o lema “Pacto RS 2025, o Crescimento Sustentável é Agora”, o encontro abordou a temática “A Transição Ecológica e seu Financiamento”, com a mediação da jornalista Rosane de Oliveira.

O presidente da assembleia gaúcha, deputado Pepe Vargas, abriu o fórum destacando a importância do evento para o debate público em um momento crítico do estado. Vargas ressaltou que, após a maior catástrofe climática já vivida pelo estado, não seria possível ignorar o tema da transição ecológica e do desenvolvimento sustentável.

“Os cientistas do clima nos alertaram que isso poderia acontecer, mas, em geral, as pessoas pensavam que aconteceria no futuro. O futuro chegou”, afirmou, enfatizando que o desafio agora é conciliar crescimento econômico, geração de emprego e renda com responsabilidade ambiental e social.

O vice-reitor da UFCSPA, Rafael Vargas, na qualidade de anfitrião do fórum, destacou o orgulho e a responsabilidade da universidade em sediar o evento. Vargas relembrou que a UFCSPA consolidou-se como referência na formação de profissionais da saúde, na produção científica e na defesa intransigente da vida, valores que, segundo ele, dialogam diretamente com os eixos dos debates.

O vice-reitor enfatizou a indissociabilidade entre saúde humana e saúde ambiental, alertando para os impactos das mudanças climáticas, da degradação dos ecossistemas e das desigualdades sociais sobre a qualidade de vida e a incidência de doenças. Para Vargas, esse novo caminho deve reconhecer os biomas brasileiros como patrimônios essenciais e romper com a lógica desenvolvimentista que associava progresso à devastação ambiental.

“A UFCSPA acredita na necessidade de construir um novo modelo de desenvolvimento - um modelo que valorize a ciência, escute as populações locais e promova justiça social e ambiental”, declarou, defendendo que o verdadeiro progresso está no equilíbrio entre desenvolvimento, preservação ambiental e bem-estar coletivo.

O governador Eduardo Leite iniciou sua fala destacando a tradição gaúcha de valorizar o conflito, traçando um paralelo entre a história do Rio Grande do Sul e a forma como a sociedade local encara os desafios. Para ele, mais importante do que evitar os conflitos é saber administrá-los em arenas democráticas, como o Fórum Democrático de Desenvolvimento Regional.

“Não é sobre não ter conflitos, é sobre como nós os administramos, da forma que nós estabelecemos eles, para que nós possamos não viver do conflito, mas, através dos conflitos, das boas ideias conflitantes, traçarmos uma trajetória e estabelecermos o nosso caminho”, afirmou.

Leite alertou que o enfrentamento das mudanças climáticas não pode ser visto como um conflito com a natureza, já que, nesse embate, todos saem perdendo. Ele lembrou as enchentes e estiagens recentes que afetaram o estado, defendendo a necessidade de gerar consciência coletiva sobre a gravidade do momento. O governador ressaltou que a transição ecológica, além de desafio, representa uma oportunidade econômica, pois o mundo inteiro demandará soluções técnicas e tecnológicas voltadas à sustentabilidade.

Ele reforçou a importância da cooperação entre Estado, União e municípios, independentemente de divergências ideológicas. “Há que se saber trabalhar em conjunto, porque a população para a qual dirigimos as nossas ações é a mesma”, concluiu.

O papel do BNDES

O presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, iniciou sua participação ressaltando o papel estratégico do banco no enfrentamento das recentes catástrofes climáticas no Rio Grande do Sul. Ele destacou que o BNDES atuou de forma emergencial, oferecendo linhas de crédito especiais para apoiar a recuperação dos setores produtivos afetados pelas enchentes. 

Mercadante enfatizou a necessidade de acelerar a transição ecológica no Brasil, defendendo que o desenvolvimento sustentável deve ser o novo paradigma para o crescimento econômico. Segundo ele, o financiamento da transição ecológica exige inovação e articulação entre diferentes esferas do poder público, setor privado e instituições financeiras.

Ele reforçou que a reconstrução do Rio Grande do Sul deve ser orientada por princípios de resiliência e adaptação às mudanças climáticas, com investimentos em ciência, tecnologia e educação. “A produção do conhecimento científico é fundamental para o enfrentamento de qualquer questão”, afirmou, destacando o papel das universidades e centros de pesquisa no desenvolvimento de soluções inovadoras.

Neste sentido, o presidente destacou a necessidade de um Estado atuante para enfrentar a crise climática e promover a transição ecológica. “É para isso que tem Estado, para ser solidário com a empresa, para buscar soluções produtivas”, afirmou, ao defender taxas de juros subsidiadas para setores estratégicos, especialmente diante das dificuldades enfrentadas pelas empresas gaúchas após as catástrofes. Segundo o gestor, o crescimento do produto interno bruto gaúcho verificado em 2024, acima da média nacional, foi reflexo dessa atuação.

“Não haverá transição climática sem participação do Estado porque é a primeira vez na história que a nova matriz energética é mais cara que a anterior”, alertou. Mercadante apontou o potencial do Rio Grande do Sul para energias renováveis e a necessidade de linhas de crédito específicas: “O empresário, para montar uma usina de painéis fotovoltaicos ou aerogeradores, precisa de linhas de crédito diferenciadas, senão não é viável”. Ele também ressaltou o protagonismo brasileiro nos biocombustíveis e a oportunidade que isso representa no contexto da transição ecológica mundial.

Ao tratar da inovação, Mercadante foi enfático: “A economia do futuro é uma economia da inovação. A gente tem que aprender a fazer mais barato, reduzindo o consumo de produtos, aumentando a produtividade e eficiência”. O presidente do BNDES também valorizou o papel das cooperativas e de empresas públicas como a Embrapa para promover o dinamismo econômico regional.

Ao finalizar, destacou a importância da soberania tecnológica, especialmente no campo da inteligência artificial. Concluiu sua fala com um chamado para um pacto de otimismo: “Vamos parar de falar mal do Brasil e do Rio Grande do Sul - vamos falar bem, acreditar, levantar o Estado e o País”.

Contribuições da academia

A reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, iniciou sua fala propondo uma “equação” para explicar as tragédias climáticas vividas no estado: a combinação entre emergências climáticas e risco. Ela explicou que a emergência climática se manifesta quando eventos extremos, antes raros, tornam-se frequentes, citando exemplos recentes de chuvas intensas e secas que se abateram sobre o Rio Grande do Sul.

Márcia destacou que, apesar do Brasil possuir uma matriz energética considerada limpa, o país figura entre os maiores emissores de gases de efeito estufa, principalmente devido ao desmatamento, impulsionado principalmente pela agropecuária. Ela pontuou o papel das universidades, como a própria UFRGS, na produção de ciência para reduzir emissões, seja combatendo o desmatamento ou promovendo alternativas sustentáveis na agropecuária.

A reitora também abordou a importância de monitoramento e pesquisa de fronteira para entender as mudanças no clima regional. Citou a ausência de sensores oceânicos no Rio Grande do Sul como um entrave para prever eventos extremos, defendendo a criação de um centro de ciências oceânicas em Tramandaí. “Como é que nós vamos ter uma informação mais digna de algo que vai começar a acontecer com mais frequência se eu não tiver esses sensores?”, questionou. Neste sentido, ela destacou a necessidade de compartilhar informações científicas de forma mais acessível e de preparar a sociedade para lidar com eventos extremos.

O presidente do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, Ranolfo Vieira Júnior, aproveitou para apresentar o BRDE, criado em 1961 e mantido pelos três estados do Sul. Vieira Júnior destacou que, em 2024, 82% dos negócios realizados pelo BRDE estavam alinhados a pelo menos um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Ao abordar a resposta à catástrofe climática recente no Rio Grande do Sul, relatou que esteve pessoalmente no Vale do Taquari logo após o desastre, acompanhando equipes técnicas e dialogando com a comunidade científica. Também chamou atenção para a necessidade de romper com o negacionismo climático e valorizar o conhecimento técnico e científico, especialmente diante de eventos extremos que antes eram considerados raríssimos.

O professor de Economia da UFRGS e ex-presidente do BRDE, Carlos Henrique Horn, concentrou sua fala nos desafios das finanças sustentáveis, destacando a insuficiência histórica da provisão de recursos para a transição ecológica, mesmo após marcos como o Acordo de Paris. Para Horn, o mundo ainda não consegue mobilizar recursos no volume e nas condições necessárias para viabilizar projetos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. 

Ele ressaltou que muitos projetos sustentáveis não geram receita direta, como centros de pesquisa ou iniciativas de reconversão da força de trabalho, e por isso dependem de recursos não reembolsáveis ou de políticas públicas robustas. Já os projetos geradores de receita, como empreendimentos apoiados por bancos de desenvolvimento, enfrentam o desafio de acesso ao crédito, que depende de instituições financeiras capazes de avaliar riscos e de oferecer condições adequadas de custo, prazo e garantias.

O economista destacou que, apesar do Brasil contar com instituições como o BNDES, o sistema financeiro atual, herdado do chamado consenso de Washington, é inadequado para responder à urgência da transição ecológica. “O funcionamento do sistema financeiro, tal como nós o herdamos, precisa ser totalmente alterado para darmos conta desse enorme desafio”, argumentou.

A professora Ana Rovedder, da Universidade Federal de Santa Maria e coordenadora da Rede Sul de Restauração Ecológica, trouxe ao debate o potencial transformador da restauração de ecossistemas quando aliada à transição ecológica e à reconstrução da resiliência climática. “A restauração de ecossistemas não é um conceito ainda muito popularizado e a sociedade precisa internalizar, porque tem uma potência gigante para gerar serviços ecossistêmicos e também gerar renda e empregos”, afirmou, ressaltando que restaurar áreas degradadas significa devolver a elas uma condição mínima de funcionamento, levando em conta valores ecológicos, culturais, sociais e econômicos.

Ana destacou que a restauração pode ser um caminho para uma transição ecológica justa. “Até o momento, nós estamos falando de um planeta em emergência climática que tem decidido uma coisa. Quem vai pagar o maior preço são os pobres. Até o momento, quem vive nas áreas menos nobres é quem mais está pagando o preço”, alertou.

Ela lembrou que o Brasil dispõe de instrumentos e políticas robustas, como o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e o Programa de Regularização Ambiental (PRA). Neste sentido, fez um apelo para que o Rio Grande do Sul avance na implementação do seu PRA, etapa fundamental para cumprir compromissos internacionais como a meta de restaurar 12 milhões de hectares prevista no Acordo de Paris.

A docente alertou para riscos de soluções simplistas, citando o exemplo recente de uma grande empresa internacional que busca neutralizar carbono por meio de monocultivos de eucalipto no cerrado brasileiro. “Quando a gente quer um bioma savânico como o cerrado, ou campestre, e converte para áreas de floresta, alteramos todo o seu regime de uso da água e de sombra. Isto é transição justa?”, provocou.

Encerramento

No final do evento, o presidente da ALRS, Pepe Vargas, convidou a sociedade a participar das próximas discussões. Além da transição ecológica, abordado no evento realizado na UFCSPA nesta segunda-feira, 28, os próximos encontros estarão centrados na sustentabilidade na indústria, comércio e serviços, na sustentabilidade na agricultura e pecuária e na superação das desigualdades regionais.

No segundo semestre, o objetivo é levar os debates a nove regiões do interior do estado, adaptando as discussões às realidades locais. Ao longo de todo o processo, a população também terá voz nas discussões através de uma plataforma digital participativa.