Palestra fez parte da programação do primeiro dia da X Mostra de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFCSPA

“Uma língua é um fator geopolítico”, afirma o professor Gilvan Müller de Oliveira, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em palestra na tarde do primeiro dia do VI Seminário de Internacionalização da UFCSPA, intitulada “O Multilinguismo na Geopolítica da Internacionalização Universitária”. O professor é doutor em linguística, leciona no Programa de Pós-Graduação em Lingüística da UFSC e falou aos seus ouvintes no Teatro Moacyr Scliar sobre a história e os desafios no âmbito comunicacional e dos idiomas na produção acadêmica, na divulgação científica e na mobilidade estudantil. Para o professor, a pauta “vai além do monolinguismo para internacionalizar o sistema universitário”.

Numa síntese sobre a história geopolítica e lingüística, Gilvan explica, como numa aula, a frase que abre o texto: “Em primeiro lugar, é essencial observar as línguas de um ponto de vista geopolítico, pois vivemos conflitos com raízes geopolíticas evidentes. A geopolítica atual nos faz refletir sobre o uso e distribuição de recursos – elementos essenciais para o funcionamento da sociedade e dos grupos humanos. Esses recursos precisam ser transportados e, para isso, decisões sobre rotas e caminhos são tomadas. É onde a geopolítica e o controle territorial ganham importância, pois interferem nas rotas de transporte. Assim, o conceito de ‘mercado’ e o de ‘população’ tornam-se fundamentais. A população de um território organiza-se através de línguas, e isso torna as línguas verdadeiras ‘pontes’ geopolíticas’. Estudar uma língua cria uma ‘rota’ para acessar determinados territórios e seus recursos. A escolha da língua que aprendemos está diretamente ligada aos objetivos geopolíticos e econômicos que desejamos alcançar. Cada nova tecnologia que surge também modifica esses conceitos, redefinindo o que são recursos valiosos”.

Gilvan seguiu com um resgate do conceito da Geopolítica Clássica, que tinha a Eurásia, a união dos continentes europeu e asiático, como o centro do mundo: “Os teóricos clássicos acreditavam que o controle da Eurásia representava o domínio sobre o mundo, dada a concentração populacional e de recursos”. De acordo com o professor, “quem a dominava, dominava os recursos e as ‘ilhas’ [os outros continentes]”. “As demais equações se arranjam ao redor dessa”, completa. A partir dessa premissa e dos arranjos que seguiram, a visão de mundo e linguística que predomina, também na produção acadêmica e científica, é eurocentrada e “english only” (“somente inglês”, alusão a esse idioma enquanto língua universal e/ou dominante em múltiplas frentes).

De acordo com o professor, há consequências de um mercado linguístico crescentemente monolíngue em inglês. A primeira é a desabilitação, pela via da invisibilidade, da produção científica em canais independentes nacionais/regionais e focado em agendas próprias. Outra é a cooptação dos cientistas e universidades para os interesses de pesquisa dos países e grupos econômicos dominantes. Uma terceira é o controle sobre a produção, a circulação e o consumo da ciência e do conhecimento e, ainda, a concentração do lucro em alguns países da língua hegemônica.

O multilinguismo é uma pauta da agenda da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). A colaboração entre universidades e essa agenda é importante, pois a UNESCO tem um papel fundamental nas áreas de cultura e educação, com cátedras que monitoram, debatem e auxiliam essas questões. Uma das ações recentes da UNESCO é o desenvolvimento do Atlas das Línguas do Mundo, uma iniciativa das Nações Unidas voltada para mapear e promover a diversidade linguística global, no qual o Brasil participa ativamente. O país inscreve centenas de línguas brasileiras, como as indígenas, de imigração e afro-brasileiras, para dar visibilidade a línguas que muitos cidadãos desconhecem.

Internacionalização não se resume à mobilidade

“Internacionalização não é apenas número de vagas para estudantes estrangeiros”, provoca Gilvan. A mobilidade acadêmica é um aspecto da internacionalização com a participação das Universidades que envolve a troca de saberes e gera um impacto econômico significativo, mas o professor joga luz sobre outros pontos. As Políticas e Planejamento Linguístico para a Ciência e a Educação Superior (PPLICES) têm importância estratégica na garantia do acesso e na promoção do conhecimento. Ainda na década de 1980, o pesquisador Richard Ruiz traçou em suas pesquisas uma espécie de linha do tempo do entendimento linguístico que deve orientar as PPLICES: antes, a língua como um problema; depois, a língua como um direito e, enfim, a língua como um recurso. 

Gilvan deixa perguntas e novas provocações ao público para instigar o pensamento sobre o tema: Que línguas são faladas na Universidade e no seu entorno? Que línguas são usadas na Universidade? Que línguas são ensinadas na Universidade e em que contexto? Professores falam menos línguas que seus estudantes estrangeiros. Não é ensinada nenhuma língua do movimento geopolítico atual. O professor ainda sentencia: “Existe uma geopolítica para impedir o espanhol na escola brasileira, porque o espanhol é a cara da integração sul-americana, da integração latino-americana. A manutenção do english only é a manutenção da ideia de que o Brasil não deve se integrar com os vizinhos, deve ficar sempre olhando apenas para os Estados Unidos”.

[A matéria completa sobre a palestra será publicada em breve no site institucional]