Estudo conduzido pela professora Eliana Wendland indica discrepância entre os números oficiais e a circulação das infecções na população da Capital

Em meio às festividades do Carnaval, uma pesquisa sob a responsabilidade técnica da professora da UFCSPA Eliana Wendland, divulgada no final de 2023, reforça ainda mais a importância da prevenção das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Produzido pelo Hospital Moinhos de Vento em colaboração com o Ministério da Saúde, o estudo traz números preocupantes em relação à prevalência de sífilis em Porto Alegre, com dados significativamente maiores do que os apontados pelos boletins oficiais do município.

De acordo com os dados coletados pelo hospital no período entre agosto de 2021 e outubro de 2023, cerca de 14% de 10.878 testes aplicados em Porto Alegre foram confirmados para sífilis. Os exames também indicaram a prevalência de HIV (2,8%), hepatite C (2,6%) e hepatite B (0,3%). Esses números representam uma taxa de 1.878 casos por 100 mil habitantes, índice significativamente superior às taxas oficialmente notificadas.

A professora Eliana Wendland destaca a discrepância como um sinal de alerta para a necessidade urgente de revisão das políticas públicas de saúde, especialmente aquelas voltadas para o diagnóstico e tratamento da sífilis. "Muitas pessoas não fazem o teste e não apresentam sintomas, resultando em um grande número de casos não diagnosticados", explica, apontando para a lacuna entre os casos notificados e os reais.

A sífilis, aponta a pesquisa, afeta desproporcionalmente as classes sociais mais baixas, evidenciando a necessidade de estratégias de prevenção e tratamento que sejam inclusivas e coordenadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo a docente, a desinformação sobre a transmissão e tratamento da doença também contribui significativamente para o seu controle inadequado. "Precisamos começar ou intensificar a educação sobre sexualidade e prevenção de doenças desde a escola, abrangendo todas as faixas etárias", defende.

A especialista aponta para vários mitos que necessitam ser combatidos para controlar a disseminação da sífilis. "Tais desinformações são obstáculos significativos à prevenção e ao tratamento eficaz", comenta. Entre as informações disseminadas erroneamente pela população, estão a crença de que o sexo oral não transmite a doença, que a sífilis não tem cura, ou que não é transmitida da mãe para o feto.

A pesquisa também levantou preocupações sobre outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), como a hepatite C e o HIV. Enquanto a hepatite B mostra sinais de controle graças ao programa de vacinação, a hepatite C ainda é pouco conhecida como uma doença curável, e o HIV apresenta uma situação de "epidemia generalizada, com uma transmissão sustentada na população geral" da região metropolitana de Porto Alegre.

Para enfrentar a epidemia de sífilis e outras ISTs, Eliana sugere a intensificação da testagem na população e o encaminhamento facilitado para tratamento. Além disso, enfatiza a importância de trabalhar com educação e comunicação para quebrar o estigma associado à doença. "Nem mesmo nas universidades temos cursos que abordam a sexualidade ou ISTs de maneira adequada", lamenta, sublinhando a necessidade de um diálogo aberto e contínuo sobre o assunto para combater o estigma e reduzir o número de casos.

Foto: Myke Sena/MS