“Doar o corpo para a ciência?”. A pergunta pode provocar estranhamento para algumas pessoas, mas esta decisão já foi tomada por mais de 500 doadores cadastrados no Programa de Doação de Corpos da UFCSPA. Referência no Brasil, a iniciativa foi implantada em 2008 com o objetivo de esclarecer a população sobre o processo de doação voluntária de corpos em vida e, desde então, possibilitou que alunos dos diversos cursos da instituição pudessem aprofundar sua formação ao estudar a anatomia em cadáveres reais.

A coordenadora do programa, professora Andréa Oxley, esclarece que o uso de corpos é imprescindível para o futuro profissional da saúde nesta entrevista ao novo site da UFCSPA.

UFCSPA: Por que o uso de cadáveres é importante para o estudo de anatomia?

Andréa Oxley: A literatura científica comprova que o aprendizado de anatomia é melhor com o uso de cadáveres. Isto é mostrado em pesquisas que promovem testes em estudantes – a compreensão é maior para os alunos que trabalharam com corpos reais. Isso é tão significativo que o congresso internacional de anatomia contempla diversos espaços para pensar temas como a montagem de programas de doação e a ética no uso de cadáveres. Tudo isto mostra que é necessário continuar utilizando corpos para o estudo.

Museu de Anatomia da UFCSPA (Foto: Luciano Valério/ASCOM UFCSPA)
Museu de Anatomia da UFCSPA (Foto: Luciano Valério/ASCOM UFCSPA)

UFCSPA: Além do ensino, o uso de cadáveres tem outros fins?

Andréa: Com a média de captações que temos, de 10 a 11 corpos por ano, atendemos satisfatoriamente às necessidades da graduação. Assim, também usamos os corpos para o treinamento de residentes, como os de cirurgia plástica, ortopedia e traumatologia. Em breve deverá iniciar a prática de residentes de ginecologia também. Isto pode ser ampliado no futuro.

UFCSPA: O estudo com corpos também traz implicações éticas para a formação?

Andréa: O uso de cadáveres é importante não apenas pelo lado técnico, mas pela formação como um todo do profissional de saúde. Quando o estudante da saúde se depara com o corpo real, nos primeiros momentos de sua formação, se dá conta da sua finitude e dos seus futuros pacientes. Isto traz um componente ético muito forte, e que vai inclusive refletir na relação com os pacientes dali em diante. Outras alternativas, como simuladores, são importantes para complementar a formação, mas nunca serão suficientes para substituir o estudo com modelos reais. 

Homenagem aos doadores de corpos (Foto: José Leal/ASCOM UFCSPA)
Homenagem aos doadores de corpos (Foto: José Leal/ASCOM UFCSPA)

UFCSPA: O fato dos corpos estudados na instituição serem de doadores tem algum impacto junto aos alunos?

Andréa: A cerimônia em homenagem aos doadores de corpos (evento anual realizado na instituição com a presença de familiares de doadores) mostra que sim. Inclusive publicamos um estudo realizado junto a estudantes que participaram da organização do evento, além de familiares e amigos dos doadores, sobre suas percepções a respeito daquela homenagem. Por exemplo, é comum que os familiares vejam os alunos emocionados na cerimônia – eles percebem o respeito e o cuidado que os acadêmicos têm com seus entes. Da mesma forma, os alunos percebem que aqueles doadores têm uma família, e sentem a necessidade de reforçar ainda mais o respeito e o comprometimento com o estudo dos corpos.