A professora Melissa Medeiros Markoski tem se destacado nas redes sociais como referência na postagem de artigos e notícias com evidências sobre a Covid-19 desde antes da chegada do coronavírus ao país. Ela é docente da área de Biossegurança e tem atuado em diversas ações na universidade voltadas para a prevenção e o combate à doença. Ela é a entrevistada desta semana da série UFCSPA contra o Coronavírus.


Como foi o impacto da Covid-19 na sua atuação como docente da UFCSPA?


Sou docente da área de Biossegurança e leciono para diversos cursos da UFCSPA. Quando os primeiros casos da Covid-19 começaram a ser noticiados procurei me inteirar para poder compartilhar as informações com os alunos. Praticamente todo o meu tempo livre era dedicado à busca de notícias mais precisas relacionadas ao assunto.


A situação da doença, de início, mesmo com as projeções existentes em março, não me fazia crer que chegaríamos tão longe em termos de “suspensão de atividades”. Tanto que, logo após à suspensão das aulas, eu e meus colegas do Comitê Técnico de Biossegurança (CTBio) começamos a nos reunir remotamente, preocupados em auxiliar o Comitê de Enfrentamento à Covid-19 (COE) a preparar um retorno seguro de todos, quando este fosse liberado. Hoje, sabemos que isso não poderia e nem poderá ser feito sem vacinas ou tratamento eficaz, pois temos cada vez mais pessoas contaminadas (inclusive da comunidade interna) e as medidas de prevenção, infelizmente, não são seguidas como deveriam. Mas o fato é que o CTBio pôde, durante todo esse período, estudar muito e organizar uma série de documentos, formulários, cursos, todos voltados à comunidade acadêmica. Até um livro sobre as questões que envolvem a Biossegurança e a Covid-19 foi lançado, sendo organizado por mim e pela professora Claudia Bica, minha colega de área e coordenadora do CTBio. As reuniões do colegiado, desde o final de março, têm sido semanais, onde discutimos sempre como levar as boas práticas de Biossegurança aos alunos, professores, técnicos e demais trabalhadores da UFCSPA.


Assim, através da minha atuação no combate à doença na esfera da Biossegurança, amparada pela formação de pesquisadora na área de Biologia Celular e Molecular e Imunologia, que tem o constante interesse no avanço do conhecimento científico, logo me vi buscando e estudando muitos dos artigos que começaram a ser publicados sobre a Covid-19 e o SARS-CoV-2.


Um dos destaques de sua atuação foi nas redes sociais...


Eu já costumava postar nas redes sociais os artigos que eu considerava interessantes, mas com o avanço da doença, as dúvidas que meus alunos me apresentavam, a falta de orientação de uma governança unida em informar a população sobre a prevenção à doença, praticamente fez-me sentir compelida a fazer algo. E assim, e muito inspirada nas mensagens da nossa reitora e de outros amigos cientistas, as postagens de artigos começaram a vir acompanhadas de explicações em português, em linguagem de fácil compreensão a todos e em perfil aberto. Através dos inúmeros comentários e compartilhamentos que foram surgindo, eu sentia que estava no caminho certo. Logo recebi o convite para participar de uma rede de pesquisadores que fazia justamente isso: levar à população as informações presentes nos artigos de maior impacto científico, que eram publicados sobre a doença, de uma forma mais compreensível a todos. A Rede Análise Covid-19 é uma iniciativa que conta com mais de 70 profissionais, sendo a maioria doutores das diversas áreas das Ciências de todo o Brasil, que se dedica ao enfrentamento da Covid-19 através da comunicação da informação de qualidade. Com eles, já escrevi mais de seis textos sobre assuntos como a importância da máscara, do distanciamento, até as relações entre o vírus e os componentes do nosso sistema imune.


Estas ações ajudam no esclarecimento da população leiga...


Sim, e outra ação que considero muito importante foi a participação junto à iniciativa UFCSPA Comunidade, um grupo formado por membros da Reitoria, da Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Assuntos Estudantis, Assessoria de Comunicação Social, professores e alunos. As ações são direcionadas a levar informações sobre a doença e prevenção para as comunidades carentes de Porto Alegre (aliadas à entrega de doações da campanha #juntospodemosmais da UFCSPA).


Há ainda outras ações que você tenha realizado contra a Covid-19 que você gostaria de destacar?


Além de tudo isso que já foi dito, tenho contribuído ainda com preceitos de biossegurança na elaboração dos equipamentos de proteção individual (EPI) do tipo “escudo facial” por impressão 3D no projeto coordenado pela professora Gisele Introíni. Recentemente, participei também da elaboração de uma relação de dúvidas frequentes (FAQ) sobre a doença para o site de nossa instituição, a pedido do professor Airton Stein.


É importante eu explicar que aquilo que começou como um senso de “dever” para com a comunidade acadêmica e sociedade, hoje é algo que faço com muito prazer e motivação, que me ensina, que me fortalece, que me faz uma profissional mais preocupada com as necessidades da sociedade. E o incentivo que recebo das pessoas que me cercam, cada vez mais me fortalece.


Na sua experiência como docente e profissional da saúde, que dimensão você atribui ao desafio imposto pelo novo coronavírus?


Acho que essa dimensão é difícil de mensurar, na medida em que o “desafio” pode ser algo que motive, que seja benéfico quando proporciona o auxílio ao próximo e à prática da cidadania e da responsabilidade social. Por outro lado, é desafiador muitas vezes argumentar com pessoas que possuem um viés político muito forte, algumas crenças ilógicas e visão negacionista e que impactam contra as ações de prevenção à doença ou à informação científica (que é sujeita a mudanças sim, mas que é embasada no método científico). E, hoje, com a quantidade de artigos publicados dia a dia, além de notícias verdadeiras e falsas sobre tudo que tange a Covid-19, também é bastante difícil acompanhar essas publicações na mesma velocidade, seja para apoiar ou para contrapor alguma informação. Assim, a “infodemia” da Covid-19 é um grande desafio no sentido de fazer a informação necessária e precisa chegar às pessoas. Algumas vezes, o excesso de informação deixa as pessoas confusas e sem saberem no que acreditar.


Que impactos você sentiu em sua vida pessoal ao decidir atuar de forma direta no combate à Covid-19?


Penso que o principal impacto foi positivo, pois poder realizar todas essas atividades está fazendo eu me sentir mais útil à sociedade, à comunidade acadêmica e à minha família. Isso tem sido uma válvula de escape para mim contra o isolamento social. Meu marido, por seu trabalho e por ter os pais em grupos de risco (assim como os meus), necessita viajar e se ausentar por semanas seguidas. Neste tempo, organizo o trabalho, as aulas, as atividades da casa, dou palestras, faço reuniões e me dedico às ações de enfrentamento à Covid-19 com muito mais facilidade.


Quando ele está em casa, algumas atividades tornam-se um pouco mais restritas, pois a minha área de trabalho acaba sendo a sala, o que infelizmente limita as atividades dele (que mesmo assim, é muito compreensivo e parceiro). Não temos filhos (não por escolha), o que permite eu poder me dedicar mais e por mais tempo ao trabalho. Porém, sou muito ligada à minha família (tenho sobrinho pequeno) e o isolamento (que se faz necessário para protegê-los) causa momentos de muita saudade, pois só posso vê-los presencialmente a cada 15 ou mais de 20 dias (quando consigo cumprir adequadamente a quarentena). No mais, me organizo para quase nunca sair de casa, a não ser o estritamente necessário (utilizo muito as ferramentas de compras online). Claro que também sinto falta de passeios, jantares fora de casa, da presença dos amigos, mas sei que existirão possibilidades futuras para isso. Neste momento, penso que o mais importante é a resiliência em seguir as normas quanto à prevenção da doença e interromper sua transmissão.


Como avalia o papel das universidades no combate à pandemia?


Acho que as universidades (principalmente as públicas) estão fazendo a sua parte, que é a de adotar e levar para a comunidade a importância nas medidas de prevenção da doença e as informações substanciais que a cercam. As universidades também estão combatendo a Covid-19 no momento em que fazem pesquisa de ponta e geram conhecimentos e insumos para serem aplicados na população, o que é fundamental e condescendente com suas diretrizes.


Sinto falta, porém, de um envolvimento maior da comunidade docente, no geral, quanto ao seu papel educador. Penso que a pandemia mostrou que é ainda pequeno o número de professores dedicados às ações que vão além de lecionar ou fazer pesquisa. E é inegável que o mundo precisa de mais educação e esclarecimentos, e muitas vezes é preciso vencer os desafios para se fazer o conhecimento, de fato, atingir as pessoas e ser levado a quem não é o nosso alvo mais direto (alunos), que é a sociedade. As universidades possuem muitas atividades na esfera da Extensão que auxiliam essa “conversa” ou “troca”, mas é preciso mais adesão dos educadores de todo o Brasil para se atingir um número maior de pessoas.


A pandemia provocou uma série de mudanças coletivas e individuais nas sociedades de todo o mundo. Você acredita que alguns desses reflexos irão permanecer após o fim da crise?


Quero acreditar que sim, principalmente, no que diz respeito à prevenção de doenças, a não estigmatização de pessoas doentes e na empatia para com o próximo. Porém, considerando o que tivemos após a Gripe Espanhola de 1918 (grande pandemia mais recente), reflito que para que possamos adotar permanentemente as boas ações, precisamos de muita dedicação da sociedade e de bons planejamentos em nível de governança.


Sobre as vacinas que estão em estudo para prevenir o vírus, você acredita que elas serão eficazes para conter a pandemia a curto prazo?


As vacinas serão eficazes à medida que houver adesão da população para a sua aplicação, algo que não acredito que irá ocorrer a curto prazo. Além disso, depois que as vacinas estiverem prontas, há muitas questões que concernem a sua produção e distribuição para a população.


Outra consideração importante é a de que as vacinas não poderão ser aplicadas ou não terão o efeito biológico esperado em alguns grupos de pessoas (como imunodeprimidos). Também não se sabe ainda se todos os seres humanos reagirão conforme o esperado pelos testes clínicos, visto que os estudos de fase 3 (que avaliam o tratamento em grande número de pessoas) ainda não estão concluídos. Neste sentido, penso que mesmo após a disponibilização das vacinas, as pessoas deverão seguir com as atitudes referentes à interrupção da transmissão do vírus e prevenção da doença, pelo menos por certo período de tempo.


Que marcas você considera que a experiência da Covid-19 deixará nos alunos de graduação?


Pelo que tenho vivenciado com os meus alunos, penso que as “marcas” serão positivas. A pandemia trouxe toda uma preocupação quanto à percepção de riscos, à prevenção da saúde do profissional e à atenção às atitudes que impactam na saúde dos pacientes. Eu, como professora de Biossegurança, estou certa de que ela trará maior cuidado na prática profissional.


Por outro lado, preocupo-me com os efeitos do isolamento na saúde mental e psicossocial dos estudantes, principalmente daqueles que estão atuando na linha de frente no combate à doença ou dos que perderam familiares e amigos. Acredito que este é um momento em que todos devemos repensar atitudes realizadas no trabalho e/ou pessoais e avaliar como nos tornar profissionais melhores e mais bem preparados naquilo que nos compete, sem perder a força e a doçura que nos fazem também “seres humanos”.


Você gostaria de deixar uma mensagem para a comunidade universitária?


Gostaria, primeiramente, de agradecer às ações de nossa reitora, professora Lucia Pellanda, da nossa vice-reitora, professora Jenifer Saffi, e de todos os nossos pró-reitores, pessoas que desempenham um papel fundamental na estrutura “humana” da instituição, nos apoiando com profissionalismo e também com o coração. Gostaria também de agradecer a todos os professores, técnicos e demais trabalhadores que seguem fazendo o seu melhor em prol do desenvolvimento de ações quanto às atividades acadêmicas e para o combate à doença. Por fim, aos alunos, desejo que observem que tudo isso que estamos passando pode nos fazer pessoas melhores, mais fortes, mais positivas, mais preparadas para lidar com problemas, mais humanas, mais responsáveis para com o coletivo. Vocês, estudantes, são o nosso “amanhã”, porém, utilizem o “hoje” como um aprendizado, não como um “problema”. Busquem apoio nas pessoas e situações que os fortalecem e acreditem no trabalho em equipe e na ciência, pois essas “entidades”, sempre estarão do nosso lado, no apoio aos profissionais de saúde que somos.