A coordenadora do Comitê Técnico de Biossegurança da UFCSPA, professora Cláudia Giuliano Bica, atua desde o início da pandemia em diversas iniciativas dentro e fora da universidade. Envolvida na disseminação de informações sobre a Covid-19 e o treinamento de profissionais da saúde, ela pede que a comunidade seja um exemplo nas ações de controle da doença. Confira abaixo a nova entrevista da série UFCSPA contra o Coronavírus.


A UFCSPA vem atuando em diversas frentes de combate à Covid-19. Qual a sua atuação desde o início da pandemia? 

Para auxiliar na pandemia tenho trabalhado nas frentes da extensão, administração, ensino e pesquisa. Na extensão, temos uma iniciativa do Núcleo Rondon, do qual sou coordenadora, chamada Minuto Corona, que já atingiu mais de 100 mil pessoas, além de um grupo de WhatsApp com mais de 900 pessoas que recebem boletins epidemiológicos e orientações diárias sobre como enfrentar a pandemia. Publicamos matérias, realizamos teleorientação, construímos conteúdo para redes sociais como cards, vídeos, podcasts, entre outros. Pelo projeto Mulheres em Ação fazemos divulgação em redes sociais de conteúdos para o público feminino abordando violência, redes de apoio e saúde mental. 

No campo da administração, como coordenadora do Comitê Técnico de Biossegurança, participei da construção de documentos para retomada das atividades e realização de cursos de capacitação de pesquisadores, atingindo mais de 200 acadêmicos da UFCSPA com o tema da biossegurança e pesquisa em tempos de Covid-19. No Comitê Técnico do Coronavírus da UFCSPA, auxilio no encaminhamento das demandas da universidade. Também atuo na produção de conteúdos relacionados à pandemia para a série de webinars “Respira e Não Pira”. 

Em relação ao ensino, organizei um livro intitulado Biossegurança e Pesquisa em Tempos de Covid-19, e-book gratuito com todas as orientações e protocolos de segurança. Também escrevi dois capítulos de livro sobre os temas “extensão em tempos de pandemia” e “mãe em tempos de pandemia”, assim como participei de cursos junto à Universidade Federal de São Paulo. 

Na pesquisa, inscrevi um projeto para o edital do CNPq, mas não foi contemplado. Neste momento participo de dois estudos vinculados à Covid-19.

 

Na sua experiência como docente e profissional da saúde, que dimensão você atribui ao desafio imposto pelo novo coronavírus? Lembra de situações pelas quais passou que possam ser comparadas a essa crise de saúde pública? 

Este momento de pandemia é muito desafiador. Em pouco tempo precisamos nos adaptar e reinventar, sem perder o foco na qualidade das nossas ações. Como professora de biossegurança, construímos, em um curto espaço de tempo, um repertório amplo, com vários exemplos práticos, valorizando o ensinamento aos estudantes. Como profissional de saúde, trabalho ativamente para auxiliar as equipes de saúde reforçando os cuidados de biossegurança, em especial nas etapas de paramentação e desparamentação, tendo trabalhado voluntariamente junto à prefeitura de Capão da Canoa com treinamentos e cursos de reciclagem sobre os cuidados. O maior desafio na minha área é ver os profissionais da saúde reutilizando os EPIs que foram feitos para serem descartáveis e que muitos colegas não respeitam as orientações dos órgãos de saúde. 

Penso que, historicamente, nunca vivemos nada parecido. À medida que vamos adquirindo novos conhecimentos, mudamos nossos hábitos. Mudança é a palavra de ordem para o momento. Já dizia Darwin que quem sobrevive é o mais apto e não o mais forte. Precisamos nos adaptar nos novos tempos, tanto de ensino quanto de postura profissional. 

Não vivemos no tempo da gripe espanhola, mas podemos construir e aprender com a história de outras pandemias vividas por nossos antepassados. Podemos pensar em um paralelo, uma vez que estamos utilizando as mesmas medidas não farmacológicas usadas em 1918 e 1919, que incluem distanciamento, lavagem de mãos e uso de máscaras. Não temos até o momento nenhum tratamento eficiente. Precaução e mudança de hábitos são fundamentais para enfrentarmos o momento. 

 

Que impactos você sentiu em sua vida pessoal ao decidir atuar de forma direta no combate à Covid-19? 

O maior impacto é o tempo. Sinto a todo momento a falta de tempo. Nunca os cientistas produziram tanto conhecimento como agora. Dar conta de tantos artigos e trabalhos, se manter atualizado frente à pandemia, onde o conhecimento muda rapidamente, é um dos maiores desafios. Outro desafio é que, a cada saída de trabalho de casa vem o pensamento da possibilidade de trazer para pessoas próximas algo tão perigoso. Mas este é o nosso trabalho. 


Como avalia o papel das universidades no combate à pandemia?
 

O papel das universidades deve ser de exemplo e protagonismo. Muito do conhecimento é gerado dentro dos muros da universidade, e este deve ser repassado a todos. 


A pandemia provocou uma série de mudanças coletivas e individuais nas sociedades de todo o mundo. Você acredita que alguns desses reflexos irá permanecer após o fim da crise?
 

Gostaria, de coração, de acreditar que sim. Entretanto acho difícil, talvez para algumas pessoas. Para as que foram mais impactadas, penso que sofrerão mudanças. Que os cuidados e a forma de agir e pensar permaneçam. Entretanto a mudança de hábitos é algo difícil. A todo instante precisamos ser lembrados, educados e reciclados, pois outras pandemias virão. 

Um exemplo disso é a mudança gerada pelo vírus do HIV, que a minha geração vivenciou bem de perto e muitos mudaram os hábitos em relação ao comportamento sexual. Se olharmos agora, poucos jovens de agora seguem as orientações do uso de preservativos para uma relação sexual segura. 


Sobre as vacinas que estão em estudo para prevenir o vírus, você acredita que elas serão eficazes para conter a pandemia a curto prazo?
 

Todos nós precisamos acreditar que sim. Não podemos perder a esperança. Temos a ciência unida em um esforço conjunto para que tudo dê certo. Entretanto sabemos das dificuldades como a necessidade da adesão da população, a possibilidade da vacina não sustentar por muito tempo a imunidade, as alergias aos adjuvantes usados nas vacinas, os indivíduos que não serão reagentes ou sensíveis a ela... Enfim, uma série de desafios a ser vencida. Além, é claro, dos custos de produção e acesso. Se olharmos para trás, a ciência está até o presente momento tentando fazer uma vacina para o HIV, HBC, entre outros. Não é algo simples, temos essa consciência. Por isso as mudanças de hábito e as medidas não farmacológicas são importantes. 


Para muitos dos nossos alunos de graduação, esta é certamente a principal crise sanitária pela qual passaram. Você acha que toda essa situação deixará marcas na formação dos novos profissionais de saúde?
 

Com certeza deixará marcas em todos nós: professores, técnico-administrativos e alunos. Estamos vivendo a história e vamos contá-la para as futuras gerações de como enfrentamos a pandemia. É um momento de mudanças, de repensar os conceitos e tudo que fizemos. Estamos entrando em um mundo novo e cheio de desafios.

 

Gostaria de deixar uma mensagem para a comunidade universitária? 

Acreditem na ciência e nas evidências. Que a nossa comunidade seja exemplo! Faça a diferença, pois estamos diante de algo coletivo, que afeta todos nós, e precisamos enfrentar coletivamente. Cada um fazendo a sua parte. E, para muitos, ficar em casa – ser exemplo é fazer a sua parte. Sejamos parte da solução e não do problema!