Ela coordena as Unidades de Terapia Intensiva da Santa Casa e dá aulas para o curso de Medicina. É também integrante do Comitê Técnico Assessor de Informações Estratégicas da UFCSPA (COE). A professora Denusa Wiltgen é a nova entrevistada da série UFCSPA contra o Coronavírus.


 

Como você tem atuado no combate à pandemia?

Participo do Comitê Técnico Assessor de Informações Estratégicas da UFCSPA (COE). Realizamos reuniões sistemáticas para traçar rumos e minimizar os riscos de nossa comunidade universitária. Atuo também na linha de frente de atendimento de pacientes acometidos por Coronavírus, juntamente com os residentes da Medicina Interna. Sou ainda coordenadora das Unidades de Terapia Intensiva da Santa Casa de Porto Alegre.


Como está sendo a experiência de atuar no combate à Covid-19? Já viu uma crise de saúde destas dimensões antes?

Acredito que esta experiência não tem precedentes, pelo menos não para nós, brasileiros modernos, que nunca enfrentamos uma situação imposta, como grandes guerras. O tempo está passando e o que se somam são mais incertezas do que certezas. Acredito que só teremos a real compreensão do que estamos vivendo em alguns anos, quando, sem o calor da emoção, das diferenças, dos embates sociais, políticos e médicos, poderemos "passar a régua e fechar a conta".

Que impactos você sentiu em sua vida pessoal ao decidir atuar de forma direta no combate à Covid-19?

O maior desafio nesse período é permanecer saudável, corporalmente e mentalmente, para poder cuidar de quem precisa. Este sempre foi o meu lema como médica, no entanto, mais do que nunca, estou disciplinada neste desafio. Para quem está na linha de frente as atribuições se somam. Substituímos colegas que estão impedidos de trabalhar. Ficamos mais expostos à doença e por mais tempo. Estar mais afastada de familiares e amigos, o que também é difícil. Sou movida a abraços e sorrisos e sinto falta dos meus abraços.

Como as universidades podem ajudar no combate à pandemia?

As universidades apresentam um papel primordial na geração de conhecimento, no aconselhamento, não apenas da população acadêmica, mas da sociedade como um todo. Em um momento em que somos atordoados por informações com suposto cunho de "ciência" de forma irrestrita, a academia, com sua capacidade de realizar leitura crítica e embasada, deve estar posicionada para fornecer informação de qualidade para a sociedade.

Você acredita que a experiência da Covid-19 trará mudanças na sociedade?

Eu acredito que o mundo sempre melhora após grandes crises, então sairemos diferentes disso tudo, e melhores. Talvez compreendamos mais facilmente que o contato humano é o que faz a vida valer a pena (e não estou falando em contato humano de reuniões de trabalho, porque essas, está claro, podem ser virtuais quase sempre!). Talvez (re)aprendamos a ver todos os ângulos de um assunto antes de termos opinião fechada sobre o tema. Talvez aceitemos mais as diferenças. Talvez deixemos as redes sociais e voltemos a ser fisicamente sociáveis. Talvez tenhamos mais empatia... Tudo isso nos está sendo apresentado em sua forma mais dura. Que saibamos perpetuar essa visão.

Sobre as vacinas que estão em estudo para prevenir o vírus, você acredita que elas serão eficazes para conter a pandemia a curto prazo?

Desenvolvimento de vacinas é sempre trabalhoso. Existem vários projetos sérios ao redor do mundo em andamento. Pessoalmente, acredito que teremos dificuldades em desenvolver uma vacina segura e eficaz em tão curto espaço de tempo. A melhor conduta por ora é seguir as orientações de manter distanciamento, usar máscara (especialmente em ambientes fechados), higienizar as mãos com álcool gel ou água e sabão e, se tiver sintomas sugestivos de quadro viral, procurar orientação profissional.

Você acredita que essa crise deixará marcas na formação dos novos profissionais de saúde?

Não tenho dúvidas! Mas não necessariamente marcas negativas. Mesmo compreendendo a dificuldade de aprender no momento atual, mais afastado da prática, o aprendizado dentro de novas rotinas de estudo e a programação para uma retomada presencial futura poderão gerar resultados surpreendentes. E para aqueles que estão vivenciando na prática o atendimento dos pacientes com Covid-19, as estratégias pensadas, os testes realizados, as pesquisas desenvolvidas, serão uma experiência de vida inesquecível.

Gostaria de deixar uma mensagem para a comunidade universitária?

Aprender a viver um momento de pouca liberdade serve para valorizarmos a liberdade que usualmente temos.
Cuidem-se.
Cuidem de quem vocês amam.
Vai passar :)