Após participar do enfrentamento ao vírus H1N1 em 2009, o gerente de laboratórios de graduação e vice-coordenador do curso de Farmácia, professor Cabral Pavei, traz sua experiência para a atual emergência de saúde pública representada pelo novo coronavírus. Liderando mais de 60 estudantes da UFCSPA, o docente integrou os esforços para a produção de 3,5 toneladas de álcool gel destinadas principalmente para populações vulneráveis de Porto Alegre. Confira abaixo a entrevista inédita da série “UFCSPA contra o Coronavírus”:


A UFCSPA vem atuando em diversas frentes de combate à Covid-19. Qual a sua atuação desde o início da pandemia?

Muito me orgulha estar em uma instituição federal que desde o início desta crise esteve dedicada em diversas ações de combate à pandemia. Mesmo antes da suspensão do calendário acadêmico, utilizando apenas insumos e equipamentos de que dispúnhamos, iniciamos a produção de embalagens de álcool gel 70 % (INPM) que seriam destinadas aos diversos setores da universidade.

Entretanto, de forma muito rápida, naquele inesquecível 13 de março, toda vida universitária e o cotidiano externo foram transformados, e com isso, nossa produção também. Após quase seis meses de ação, estamos nos aproximando da produção de 3,5 mil kg de álcool gel, contando com envolvimento de mais de 60 alunos dos mais diferentes cursos de graduação, tanto de nossa universidade como de outras instituições de ensino superior.

 

Na sua experiência como docente e profissional da saúde, que dimensão você atribui ao desafio imposto pelo novo coronavírus? Lembra de situações pelas quais passou que possam ser comparadas a essa crise de saúde pública?

Acompanhando os casos na Ásia e na Europa ainda em 2019, assim como as declarações da Organização Mundial da Saúde, a lembrança que me veio naquele momento foi da retomada de um ciclo. Em 2009, ainda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, havia vivido a experiência com a gripe suína (H1N1), quando igualmente participei de uma força-tarefa voltada ao enfrentamento daquela pandemia.

Contudo, com o aumento exponencial no número de casos, o fechamento de regiões inteiras, além do colapso do sistema de saúde em alguns países, acho que realmente comecei a compreender e me preparar para um dos maiores desafios de saúde pública de nossa história. Infelizmente, por uma série de fatores, a pandemia de Covid-19 no Brasil tem trazido graves consequências em diversos estados, somada à crise político-econômica, que terão espaço para sempre em nossas mais tristes lembranças. 

 

Que impactos você sentiu em sua vida pessoal ao decidir atuar de forma direta no combate à Covid-19?

Estamos há mais de seis meses neste período que alguns insistem em chamar de “novo normal”, que para mim pouco tem de normalidade, pois ele trouxe consigo muita ansiedade, preocupação excessiva, afastamento social e familiar, entre vários outros reflexos. Por conta disso, estar atuando diretamente na pandemia até certo modo minimizou estes sentimentos, em especial ao ver a motivação dos alunos no preparo e a alegria de cada um quando nos chegavam as fotos do nosso produto sendo disponibilizado a populações em situação de rua, povos indígenas e outros de grande vulnerabilidade.

Como pai, as mudanças na rotina das crianças trouxeram também uma avalanche de sentimentos, como a saudade da convivência com os amigos, professores e familiares, a novidade de comemorar os aniversários via aplicativos e o medo natural que acompanha uma doença desconhecida, em especial para crianças que têm pai e mãe profissionais da saúde. Contudo, buscamos continuamente novas formas de brincar, de ensinar/aprender, e acredito que todos pudemos amadurecer neste período de distanciamento.

 

Como avalia o papel das universidades no combate à pandemia?

De enorme destaque e merecedoras de reconhecimento ainda maior de todos, pois ficou muito cristalino a importância do ensino e da saúde pública em nosso país. Ainda em março, já eram noticiadas a enorme mobilização em universidades e institutos públicos em ações de enfrentamento da pandemia, demonstrando nossa proximidade e preocupação com a sociedade, em que pese as infundadas críticas e os recorrentes cortes orçamentários nos últimos anos.

 

A pandemia provocou uma série de mudanças coletivas e individuais nas sociedades de todo o mundo. Você acredita que alguns desses reflexos irá permanecer após o fim da crise?

Nas conversas percebo que muitos conhecidos já elencaram diversas ações que pretendem seguir após a pandemia, como cuidados antes de entrar em casa, higiene das mãos e até mesmo o uso das máscaras, em especial no inverno ou em condições alérgicas ou gripais. Mas como será a recepção na escola/trabalho em um cotidiano no qual estas ações já não estarão mais tão em evidência como atualmente?

Além disso, temos um ditado que se refere a nossa “mémoria curta”. Contudo, em um país tão grande e desigual quanto o Brasil, percebo que está “memória” está muitas vezes condicionada à possibilidade de manter determinados hábitos, dadas as limitações para as próprias condições materiais de existência. Assim, mais uma vez, irá passar pelos profissionais da saúde seguir como guerreiros na propagação de informações e orientações de algumas condutas que se tornaram rotineiras em nosso país neste momento, mas que podem, dentro das limitações de cada um, serem mantidas total ou parcialmente. 

Sobre as vacinas que estão em estudo para prevenir o vírus, você acredita que elas serão eficazes para conter a pandemia a curto prazo?

Lido com este tema com muita cautela, pois se considerarmos os prazos envolvidos na pesquisa e desenvolvimento, o processo de vacinação em massa e o histórico na obtenção destes insumos, nos deparamos com prazos relativamente altos. Naturalmente, a enorme expectativa da população, as notícias do início da imunização em alguns países e o significativo número de vacinas em teste, indicam as mais diferentes datas para uma ampla disponibilização de um produto seguro e eficaz que alcance a todos indistintamente, tanto no sistema privado como no sistema público de saúde. Como complemento, algo que me preocupa muito e que deve ter a atenção de todo profissional da saúde é o expressivo crescimento de movimentos de oposição organizada à vacinação pública, que pode vir a ser mais um grande desafio no futuro.

 

Para muitos dos nossos alunos de graduação, esta é certamente a principal crise sanitária pela qual passaram. Você acha que toda essa situação deixará marcas na formação dos novos profissionais de saúde?

A Covid-19 evidenciou o valor imensurável dos profissionais de saúde em todas as regiões do planeta. Na esfera acadêmica, demonstrou a grande necessidade de aproximar cada vez mais nossos alunos das populações marginalizadas e vulneráveis, para que compreendam as diferentes necessidades de saúde da população e que, desse modo, possamos formar profissionais mais humanos, solidários e comprometidos com a sociedade. Além disso, a complementaridade de nossas áreas do conhecimento, nas mais diferentes frentes do enfrentamento à pandemia, sinaliza novas exigências no desenvolvimento de atitudes e habilidades dos futuros profissionais. Aqui mesmo na UFCSPA, com todas as transformações que estamos vivenciando com a modalidade à distância, vejo que desde já estamos desenvolvendo diversas ferramentas voltadas às novas formas de ensino.

 

Gostaria de deixar uma mensagem para a comunidade universitária?

Agradeço e parabenizo a todos que estão ou estiveram envolvidos nas ações de enfrentamento em nossa universidade, em especial aos alunos e alunas que, na atividade de produção do álcool gel, puderam se aproximar e fazerem a diferença neste momento tão crítico enfrentado pela população em situação de rua e vulnerabilidade social. Nosso antisséptico chegou a um expressivo número de pessoas, seja por intermédio da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre, da Secretaria Especial de Saúde Indígena, da EMEF Porto Alegre, além de ações como a dos Cozinheiros do Bem e do Centro de Promoção da Criança e do Adolescente, citando apenas alguns exemplos. Por estes motivos, considero que eles são os verdadeiros protagonista desta ação.

Meus agradecimentos ainda às professoras Kellen de Souza e Alessandra Dahmer, pela parceria na produção e na execução dos acordos de cooperação com a Fundação Médica e a Receita Federal no Rio Grande do Sul para recebimento tanto das doações como das bebidas alcoólicas enviadas para destilação. Esta etapa que, por intermédio da docente Juliana Scheneider (Departamento de Farmacociências/UFCSPA) e do professor Eduardo Rolim (Instituto de Química/UFRGS), possibilitou o estabelecimento de uma profícua cooperação para obtenção de álcool puro, realizada pela equipe de técnicos do Centro de Gestão e Tratamento de Resíduos Químicos da UFRGS, representada pela química Greice Oliveira.