O Centro de Terapia Intensiva (CTI) é, geralmente, o local mais delicado no atendimento a pacientes dentro de um hospital. É onde vão parar os casos mais graves e os profissionais que lá atuam precisam trabalhar com segurança e coragem, para fornecer aos pacientes a empatia e o acolhimento de que precisam.

Durante esta pandemia de Covid-19, a grande quantidade de pacientes simultâneos em estado crítico e a necessidade redobrada de cuidados para evitar o contágio dos profissionais de saúde exigiram ainda mais de quem lá atua, tornando o atendimento em CTI um verdadeiro front de batalha. A entrevista desta semana da série UFCSPA contra o Coronavírus é com a médica intensivista e professora da área de Semiologia Roselaine Pinheiro de Oliveira.



Como você tem atuado no combate à Covid-19?


Eu sou internista e médica intensivista. Atuo como coordenadora médica do CTI Adulto do Hospital Moinhos de Vento e, também coordeno a CTI do Hospital Dom Vicente Scherer, sendo ainda coordenadora do grupo de hospitalistas da Santa Casa.


Desde o início da pandemia tenho atuado diretamente no front, na beira do leito, trabalhando com pacientes críticos.


Na sua experiência na área de terapia intensiva, que diferenças você observa no paciente que chega com a Covid-19 em relação aos pacientes tradicionais?


O paciente da Covid-19 geralmente chega em estado mais grave que o habitual. Estamos acostumados e treinados para lidar e cuidar de pacientes graves em terapia intensiva. A diferença deste paciente em relação aos outros que estamos acostumados é que eles são muitos. Nós temos uma área na UTI com 17 leitos e as 17 pessoas que estão internadas ali estão com ventilação mecânica. A demanda do paciente de Covid-19 em relação à gravidade e ao número de serviços que ele que ele precisa – suporte, ventilação, diálise – é muito maior.

 

 Você já havia vivenciado uma crise de saúde pública nestas proporções?


Nunca vi uma crise de saúde pública que se igualasse a esta. Mesmo na epidemia de H1N1 era diferente, por causa do impacto do vírus. O H1N1 não tinha esta capacidade de contágio tão grande. Então nós, profissionais de saúde, utilizávamos paramentação de proteção (EPIs), mas na hora de tirar estes equipamentos, não tínhamos toda a preocupação que temos hoje. No combate ao coronavírus, há todo um protocolo para a colocação e retirada destes EPIs, então nós temos que pensar quatro vezes antes de tomar um copo d’água, por exemplo, porque o risco de se contaminar é muito grande.


Há também a questão do impacto. Se discute muito se a mortalidade da Covid-19 é maior ou menor que a do H1N1. Ela pode ser até menor, mas seu impacto é muito maior, pois está atingindo um número muito maior de pessoas. É uma situação incomparável.

 

Que impactos você sentiu em sua vida pessoal ao atuar de forma direta no combate à Covid-19?


Na minha vida pessoal, mudou tudo. Eu antes era uma pessoa que durante a noite ficava com telefone longe de mim e desconectado da internet. Hoje eu durmo com o telefone do meu lado e sempre ligado e com conexão ativa. Recentemente voltei a dar aulas para o segundo e o terceiro ano de Medicina, e, mesmo durante as aulas, preciso ficar com o telefone ligado, coisa que eu não gosto de fazer. Mas às vezes acontece de aparecer uma emergência e eu preciso atender a ligação no meio da aula, o que é muito ruim, mas que se deve à necessidade, à urgência e à magnitude desta pandemia.

 

A pandemia provocou uma série de mudanças coletivas e individuais nas sociedades de todo o mundo. Você acredita que alguns desses reflexos irá permanecer após o fim da crise?


Para algumas pessoas sim. Acredito que vão ocorrer mudanças com cuidados e controles, mas depende muito de cada um e do quanto a pessoa acredita que este é um momento de retomada e crescimento em vários aspectos. É preciso ter um insight para isso, mas não sei se todas as pessoas têm, ou se a maioria delas não vai esquecer tudo rapidamente.

 

Sobre as vacinas que estão em estudo para prevenir o vírus, você acredita que elas serão eficazes para conter a pandemia a curto prazo?


Sobre as vacinas, nunca se pesquisou tanto a respeito. Aliás as pesquisas iniciais que saíram sobre a Covid-19 tiveram diferentes vieses, o que provocou muitas dúvidas na população e dificultou a acreditação da Ciência, porque uma pesquisa clínica pode ser conduzida de uma forma que aponte para aquilo que se pretende mostrar.


Pelo que se sabe, as pesquisas com vacinas ainda vão demorar um pouco. Talvez tenhamos algo concreto disponibilizado daqui a seis meses ou um ano, o que para o desenvolvimento de uma vacina é curto prazo. Mas acho que em virtude de todo o esforço da comunidade científica mundial, isso será possível.

 

Você acredita que todas as mudanças provocadas pela pandemia deixarão marcas na formação dos novos profissionais de saúde?


Acredito que sim. Na disciplina de Semiologia Geral que ministro, por exemplo, estamos na fase de abordar a forma como os alunos conversam com os pacientes. Nós estamos nos comunicando virtualmente e eles têm que fazer anamnese, mas como eles vão fazer a anamnese a distância? Eu sempre dou um exemplo: “Se eu ficar em casa um mês assistindo um DVD do Michael Phelps ensinando a nadar e eu não cair na piscina, eu não vou saber nadar. Eu sei a teoria”. Então, eu estou tendo todo o cuidado de planejar várias atividades, mesmo que virtualmente, para que eles exercitem a anamnese. Por isso eu acho que vai deixar sim, marcas nos novos profissionais. Eu imagino que no ano que vem, ou que no ano em que eles voltem às aulas presenciais, nós precisaremos ter um cuidado maior com eles. Eu já me coloquei à disposição desse meu grupo, porque eles vão precisar de uma abordagem um pouco mais dedicada e um olhar mais atento para eles.


E os que estão se formando agora?


Eu tive a oportunidade de assistir virtualmente dois alunos que foram do meu grupo de integração há quatro anos se formarem e eu me emocionei muito com eles, com a professora Lucia Pellanda dizendo que eles estavam se tornando médicos. A emoção é a mesma, mas há todo um coroamento de um processo que só está se iniciando com a formatura. São profissionais que, certamente, se tiverem a sensibilidade de entender tudo isso que está acontecendo e apresentarem empatia para com a sociedade, terão uma boa atuação.

 

Que mensagem você gostaria de deixar para a comunidade universitária?


Devemos seguir neste nosso papel de colaboração, de diversidade e se lembrar de que saúde é muito mais do que sinais, sintomas, exames e tratamentos. É saber ouvir, saber falar, acolher. Eu sempre digo para os alunos que quando um paciente chega para nós, ele não quer saber o nosso currículo, não quer saber quanto tiramos nas disciplinas ou qual foi a nossa média final na faculdade. Ele quer que nós o acolhamos e que possamos cuidá-lo. O papel do médico é cuidar. Há um aforismo em Medicina que diz “Nós curamos poucas vezes, tratamos muitas vezes, mas cuidamos sempre”. Cuidar da vida, cuidar da morte, acompanhar o paciente nos piores momentos e deixar ele saber que tem ao seu lado um profissional que vai se preocupar com ele e vai acolhê-lo e à sua família, para que eles caminhem no melhor caminho, que pode ou não ser a cura.