A professora da UFCSPA Ana Beatriz Gorini da Veiga atua desde o início da pandemia em diversas frentes de combate ao novo coronavírus, com atuação na divulgação científica, pesquisa em infecções virais e suporte ao trabalho diagnóstico. A nova entrevistada da série UFCSPA contra o Coronavírus aborda os impactos da crise de saúde pública sobre sua vida pessoal, os indivíduos e a sociedade, além da necessidade de repensar a relação dos seres humanos com a natureza. Confira:


 

Como vem atuando na UFCSPA no enfrentamento à pandemia de Covid-19?

No início, participei da aula aberta no dia 4 de março, quando falei sobre a genômica do coronavírus. Tenho atuado muito na disseminação do conhecimento sobre o que é estudado em relação aos vírus causadores de infecções respiratórias. Recentemente foi publicado um artigo em que participei como colaboradora, juntamente com o grupo do Laboratório Central do Estado (Lacen). Participou também do estudo a responsável pelo diagnóstico das doenças infecciosas dos vírus respiratórios do Lacen, Tatiana Gregianini. Neste artigo abordamos a importância dos quatro coronavírus endêmicos, que causam todos os anos resfriados comuns na população. Mostramos, em uma análise de seis anos, aqui no Rio Grande do Sul, que os casos dos coronavírus mais comuns também podem causar infecções graves em adultos sem comorbidades, inclusive levando a óbito.

Além disso, também atuei junto ao Laboratório de Biologia Molecular da Santa Casa realizando o treinamento dos pesquisadores responsáveis pelo diagnóstico da Covid-19. Como eu já tinha experiência com as técnicas de extração de RNA viral de amostras de nasofaringe e amplificação por RT-PCR do material, foi solicitado que eu passasse essa orientação à equipe.

Também participei de vários podcasts, programas e entrevistas em rádio e televisão falando sobre o coronavírus, assim como na produção de materiais para as redes sociais da universidade. Tivemos inclusive um projeto contemplado pela chamada da Fapergs. O objetivo deste projeto é fazer a caracterização genômica das cepas de coronavírus circulantes no Estado e a caracterização do perfil de microbioma e viroma dos pacientes que apresentam síndrome respiratória aguda grave comparando os positivos e negativos para coronavírus. Tudo isto para ver se há algum perfil que possa explicar um pouco dessa interação entre diferentes microorganismos no trato respiratório dos pacientes.

Como coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica e Empreendedorismo da UFCSPA, tive participação em ações com diferentes instituições, como por exemplo o Pacto Alegre, em que participei da avaliação de projetos submetidos a diferentes editais. Também fiz a intermediação com o Espaço Maker, coordenado pela professora Gisele Introini, para auxiliar na impressão 3D de equipamentos de proteção individual. Também coordeno um projeto de extensão chamado PodCastelinho, em que produzimos alguns episódios específicos para abordar o tema da Covid-19.

 

Na sua experiência como docente e pesquisadora em saúde, que dimensão você atribui ao desafio imposto pelo novo coronavírus? Lembra de situações pelas quais passou que possam ser comparadas a essa crise de saúde pública?

Esta crise tem uma dimensão extremamente importante, no contexto do século 21, mas para quem estuda infecções respiratórias, epidemias e pandemias, a situação não é tão grave como outras que já assolaram a humanidade. Claro que outras pandemias foram extremamente graves porque ocorreram em momentos da história humana em que as condições de saneamento e conhecimento acerca dos patógenos não eram avançadas. A própria gripe espanhola, ocorrida em 1918 e 1919, é um exemplo, já que na época não se sabia qual era o agente etiológico daquela pandemia - o vírus Influenza só foi descrito a partir da década de 30.

A atual pandemia tem uma dimensão muito significativa por causa da globalização, em que os países são dependentes uns dos outros, e por causa dos meios de comunicação. Com isso também acabamos sofrendo com as fake news, a “infodemia”. Esta tem sido uma crise de saúde pública em todos os aspectos, não apenas pelo impacto direto da Covid-19, mas também outros problemas de saúde que acabam sendo negligenciados. Falta até mesmo financiamento para tratar as demais questões de saúde pública. Além de tudo isso, também preocupa a grande crise econômica que virá como consequência dessa pandemia.

 

Como foi a sua experiência pessoal com a doença?

No início participei no combate de forma mais direta, indo presencialmente no laboratório, eventualmente a cada semana e depois uma vez por mês. Agora já faz um tempo que consigo trabalhar de forma remota. No início ficamos bastante assustados, considerando as questões de risco na manipulação de amostras ou em estar em um ambiente onde essas amostras são analisadas. Porém é muito mais seguro um ambiente assim do que os locais de atendimento direto aos pacientes.

Por exemplo, no início eu fui várias vezes ao Laboratório de Biologia Molecular da Santa Casa para dar suporte logístico, mas eu tinha mais receio ao entrar no hospital e em um elevador do que dentro do próprio laboratório usando equipamentos de proteção individual. Como eu moro sozinha, não tive tanta preocupação em relação a familiares, mas evitei estar presencialmente com meus pais, pois são parte do grupo de risco.

A partir do momento em que comecei a trabalhar de forma remota, todas as atividades passaram a consumir muito do meu tempo. Com a pandemia, acordo com o celular na mão, respondendo mensagens e e-mails, e vou dormir logo depois de desligar o computador à noite. Então são quase 24 horas com coisas a fazer, com um impacto significativo, com poucos momentos de lazer.

Tenho certeza que isto acontece com outros profissionais de saúde que estão atendendo a comunidade e atuando de forma mais direta no combate à pandemia, como quem está nos laboratórios fazendo o diagnóstico. Também sei do impacto sobre muitas pessoas que não trabalham diretamente com a pandemia e que estão em casa, com seus momentos de tédio e falta de expectativa. Portanto, para mim é muito gratificante poder participar um pouquinho dessas ações de combate.

 

Como avalia o papel das universidades no combate à pandemia?

Fundamental. Vivemos em um país que não tem destaque mundial em termos de inovação e desenvolvimento, mas o pouco que se tem vem das universidades, principalmente das públicas federais. As universidades têm papel imenso na produção de conhecimento e no desenvolvimento de antivirais, vacinas, equipamentos médicos. As vacinas que vêm sendo desenvolvidas ou testadas no mundo inteiro são oriundas do trabalho de diversas universidades, como Oxford, Imperial College de Londres e Duke-NUS de Cingapura.

A UFCSPA está de parabéns com ações, não só de divulgação e esclarecimento, mas iniciativas diretas, como produção de álcool gel, participação no diagnóstico com o Laboratório de Epidemiologia Clínica, produção de EPIs pelo Laboratório de Inovação, Prototipagem, Educação Criativa e Inclusiva, entre outras. Também merece menção a atuação dos voluntários e residentes que atendem pacientes infectados ou com suspeita de infecção pelo novo coronavírus.

 

A pandemia provocou uma série de mudanças coletivas e individuais nas sociedades de todo o mundo. Você acredita que alguns desses reflexos irão permanecer após o fim da crise?

Espero que a pandemia tenha nos mostrado sobre o que de fato importa, quais são as nossas prioridades na vida. A pandemia, isto é importante salientar, é humana. A doença é causada por um vírus, que é algo natural, mas a pandemia é um evento humano. A rápida proliferação de uma doença infecciosa ocorre devido ao comportamento humano. Isso precisa servir para nós repensarmos o nosso modo de viver, como tratamos o resto da natureza.

Pode parecer conversar de biológo sobre a importância da conservação, mas de fato esses vírus estão presentes em outros animais e no ambiente. Quanto mais degradarmos o ambiente e expusermos os animais silvestres ao ambiente urbanizado, mais estaremos nos colocando em contato com esses animais que carregam esses vírus. No momento em que um microorganismo desses se adapta ao hospedeiro humano, pode se tornar patogênico. Se nós não soubermos lidar com isso, não respeitarmos a condição de saúde em que nos encontramos e seguir colocando outras pessoas em risco, acaba se espalhando e se tornando uma pandemia.

Além disso, a necessidade do isolamento social mostrou que podemos viver sem algumas coisas que muitas vezes consideramos essenciais. Eu, por exemplo, nunca fui muito adepta de shoppings e consumismo, mas vejo pessoas que semanalmente precisam sair e comprar algo. Durante essa pandemia, isso realmente faz falta? Ou não será que foi mais importante ter os pais e amigos vivos? E aqueles profissionais muitas vezes não valorizados? Como os que trabalham na coleta de lixo urbano, na limpeza, na entrega, que são trabalhos fundamentais do dia a dia. E os profissionais de saúde, como enfermeiros, atuando no leito do paciente, aplicando medicamentos? Neste momento passamos a valorizá-los mais.

Há aqueles que dizem querer voltar à normalidade. Eu respondo que espero que nunca se volte para o que era considerado normal anteriormente. Espero que esse nosso novo normal traga uma nova forma de ver e respeitar o mundo como um todo, assim como o ambiente e as outras pessoas.

 

Sobre as vacinas que estão em estudo para prevenir o vírus, você acredita que elas serão eficazes para conter a pandemia a curto prazo?

Difícil dizer, pois a questão não é simplesmente encontrar uma vacina com efeito de proteção sobre os indivíduos, ao menos por um tempo. Não se trata de apenas chegar à vacina e tê-la aprovada, mas conseguir distribuí-la para toda a população. Este será o grande desafio, não apenas em termos logísticos, na distribuição de doses suficientes para uma cobertura vacinal adequada, mas também em termos econômicos. Todas as questões que envolvem políticas públicas de saúde, patentes, royalties, enfim, acredito que seja difícil a curto prazo. Também há questões como a prioridade da vacinação, quais serão as populações que receberão primeiro, que há pessoas em condições de vida e saúde muito piores que outras. Acredito que levará algum tempo.

 

Para muitos dos nossos alunos de graduação, esta é certamente a principal crise sanitária pela qual passaram. Você acha que toda essa situação deixará marcas na formação dos novos profissionais de saúde?

Sim, sem dúvida alguma, não só dos profissionais de saúde, mas de outras áreas. Muitos trabalham indiretamente, mesmo não sendo da saúde, como por exemplo profissionais da computação, que acaba atuando muito nas questões de comunicação e desenvolvimento de equipamentos essenciais.

Imagina estar na época da tua formação, independentemente da área em que atua, querendo logo entrar no mercado de trabalho e ter que enfrentar uma pandemia como essa. Tudo fica suspenso, o futuro se torna incerto. Já vivemos em um país onde não se sabe o dia de amanhã, se haverá empregos, a questão da violência e tudo mais. Imagina toda uma vida planejada para fazer uma faculdade, com famílias se sacrificando para o filho poder entrar na universidade e de repente se deparar com uma situação em que tudo é suspenso, sem previsão de retomada das aulas presenciais.

Por outro lado, o que eu vejo com base nos meus alunos é um interesse maior em entender as doenças infecciosas virais, porque muitas vezes achamos que todos os vírus são a mesma coisa. Eles são um mundo à parte. São moléculas de ácidos nucleicos, nem sendo considerados seres vivos, com capacidade de causar estragos nos organismos. Existem os vírus de plantas, animais, bactérias, fungos.

 

Gostaria de deixar uma mensagem para a comunidade universitária?

Quero agradecer à comunidade da UFCSPA, tanto pelas colaborações no enfrentamento direto à pandemia como para aqueles que vêm ajudando com o distanciamento. Sei de muitos colegas que estão seguindo à risca todas as regras, respeitando o próximo e toda a sociedade. Em um momento que fazemos isso, estamos contribuindo para o controle o mais rápido possível da doença. Também quero agradecer à gestão da universidade, que vem apresentando atitudes exemplares no combate e na forma de lidar com toda a situação. Uma forma extremamente ponderada, democrática, mas ao mesmo tempo firme e com embasamento científico. Também quero dizer que precisamos ser fortes. Precisamos sair de toda essa situação mais sábios - não apenas com mais conhecimento, mas mais sábios nas nossas atitudes.