Estar na linha de frente do combate a poderosas epidemias tem um risco: vivenciar na própria pele aquilo que procuramos combater. Esta foi a experiência do professor de Infectologia da UFCSPA, Paulo Renato Petersen Behar.

Quando participou, como palestrante, do evento informativo sobre o novo coronavírus na UFCSPA, no dia 4 de março, antes da Covid-19 chegar ao Rio Grande do Sul, Behar não imaginava que, além de ter que combater uma pandemia de proporções gigantescas, seria também contaminado pela doença. Ele é o convidado da segunda entrevista da série UFCSPA contra o Coronavírus



Como você vem atuando na UFCSPA no enfrentamento à pandemia de Covid-19?

Em março de 2020, ainda bem no início da pandemia, participei de um fórum sobre o novo coronavírus organizado pelo professor Airton Stein e pela reitora Lucia Pellanda. Fui o responsável por apresentar o quadro clínico da doença. Ao final do evento, por inciativa da reitora, se formou um grupo de trabalho de professores da universidade para o enfrentamento das questões relacionadas à Covid-19 na UFCSPA (COE).

No dia 20 de março, entretanto, tive que parar as minhas atividades profissionais por ter adoecido justamente pela Covid-19. Desse momento em diante parei de participar do COE de Covid-19 da UFCSPA, sendo substituído pela professora Ana Sandri.

 

Como foi a sua experiência pessoal com a doença?

A doença, em mim, foi leve. Tive três dias de febre, cefaleia, dor retrorbital, mialgias, artralgias, anorexia, prostração, cansaço. Os dois últimos sintomas duraram oito dias. Fiquei 14 dias de isolamento completo.

Mesmo com a Covid-19, continuei atuando, a distância, no combate à doença. Mantive contato remoto com os professores colegas da UFCSPA, com o professor Antônio Kalil, atual diretor médico da Santa Casa, e com o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar daquele hospital. A partir desses contatos, estando eu com poucos sintomas, escrevi junto com os colegas infectologistas Marilia Severo, Ana Sandri e Ronaldo Hallal, do Corpo Clínico da Santa Casa, a primeira versão do Protocolo de Manejo Clínico de Pacientes com Covid-19 da Santa Casa.

Naqueles dias eu pensava: “Que situação diferente estar participando da elaboração de um protocolo de uma doença pela qual eu estou passando no momento... E uma doença nos moldes de uma pandemia tão avassaladora e geradora de uma crise no planeta!”. Foi algo curioso e ao mesmo tempo edificante para mim. Me senti muito agradecido por não ter tido uma forma grave da doença e por poder estar trabalhando em prol desta causa de proporções gigantescas, modificadora de hábitos e da nossa história humana na terra.

Depois, estando curado e liberado do isolamento, mas seguindo todas as orientações do Ministério da Saúde, das Secretarias Estadual e Municipal de Saúde, assim como as regras locais da Santa Casa e do Hospital Conceição, onde também trabalho, voltei às atividades de atendimento de pacientes com Doenças Infecciosas, principalmente Covid-19 e preceptoria a médicos residentes.

O retorno ao ensino aos acadêmicos da Medicina da UFCSPA se deu apenas recentemente, no dia 3 de agosto.

 

Na sua experiência como docente e profissional da saúde, que dimensão você atribui ao desafio imposto pelo novo coronavírus? Lembra de situações pelas quais passou que possam ser comparadas a essa crise de saúde pública?

A dimensão e o desafio impostos pelo novo coronavírus, o SARS-CoV-2 são imensos. Nunca vivenciei situação de tal proporção. Foi e ainda está sendo algo de enorme impacto em todas as camadas, esferas e contextos da vida humana.

A crise de saúde pública mais próxima temporal e geograficamente, mas de uma proporção muito menor que acompanhei foi a recente epidemia de febre amarela, que foi avassaladora no país. Não cheguei, entretanto, a vivenciar tal crise pessoalmente pelo fato de ela não ter chegado ao Rio Grande do Sul, provavelmente pelas ações eficazes da Secretaria de Saúde do nosso Estado.

 

Que impactos você sentiu em sua vida pessoal ao decidir atuar de forma direta no combate à Covid-19?

Uma vez que se sonha em ser médico, se estuda, se forma e se inicia nessa vida de médico, no meu caso médico infectologista, a gente sabe de antemão das possibilidades de contato com pessoas portando doenças contagiosas. Apesar dos cuidados recomendados, a exposição a micro-organismos causadores de infecções como resfriado, gripe, tuberculose, sarampo, varicela, outras várias, e, agora, Covid-19, é mais elevada.

Infectologistas e outros profissionais da saúde da minha idade já passaram por outras duas grandes pandemias: infecção pelo HIV e Influenza A H1N1. Mas nenhuma delas trouxe tanto risco aos profissionais da saúde como a Covid-19 vem trazendo. Quando a pandemia entrou em nosso país e, depois, em nosso Estado, entrou também um lado pessoal: um tanto de medo e de ansiedade. Quando a situação é mais próxima, mais concreta, é preciso um tanto de preocupação e de preparação para entrar de novo no "campo de batalha". E o cenário desta pandemia é conhecido por todos nós. Não se trata de algo de pequenas proporções. Meditar foi algo que me manteve em equilíbrio todo esse tempo.

O outro lado da moeda, que a pandemia me trouxe é o da renovação e ressignificação da minha profissão. Desde quando ainda era aluno da Disciplina de Infectologia, no terceiro ano de faculdade, e, depois, durante o internato e residência junto aos meus queridos professores [é doce e é forte poder dizer "meus queridos professores"] da Infectologia: Wanderlei Severo, Sofia Martins, Beatriz Targa, Marilia Severo, Egomar Edelweiss, a minha volição de querer diminuir as desagradáveis sensações que acompanham aqueles que têm febre, que sofrem de doenças infecciosas, aumentou extremamente. Nessa pandemia, toda essa vontade de ajudar a aliviar o sofrimento trazido pela Covid-19, podendo trabalhar na prevenção e no tratamento das pessoas, é algo difícil de expressar em palavras somente. Me sinto muito agradecido à UFCSPA, onde me formei, e à Santa Casa, que foi e segue sendo o nosso Hospital-Escola.

Outro ponto importante para mim é ver este espectro da realidade humana, em que pessoas e famílias se veem forçadas a enfrentar sintomas, diagnósticos, prognósticos desde os melhores até os piores e ver a capacidade das pessoas de negar, barganhar, aceitar e enfrentar frente às vicissitudes e aos limites da vida. A gente vê cada história de vida!

Recentemente, me impactou muito a situação de um colega pneumologista, amigo formado na UFCSPA, ter enfrentado uma forma grave da Covid-19. A notícia de sua alta da UTI, foi uma alegria muito grande.

 

Como avalia o papel das universidades no combate à pandemia?

As universidades têm papel fundamental no combate à pandemia. A nossa universidade está desempenhando um papel essencial. Desde a formação de profissionais que estão atualmente trabalhando na pandemia até os que agora, estão na fase de estudantes, mas que em pouco tempo estarão também atuando. A UFCSPA tem um papel fundamental na formação profissional voltada para o uso de evidências científicas, tecnologia e dispositivos para a assistência de pacientes da profilaxia primária e secundária.

 

A pandemia provocou uma série de mudanças coletivas e individuais nas sociedades de todo o mundo. Você acredita que alguns desses reflexos irão permanecer após o fim da crise?

Sim, há vários exemplos na história de mudanças que passam a ser incorporadas na sociedade e que depois permanecem. Mudanças acontecem a cada segundo. A mudança, entretanto, que essa pandemia está forjando é muito grande em um período muito curto de tempo. Essas características impulsionam todo o processo com muito mais velocidade.

 

Sobre as vacinas que estão em estudo para prevenir o vírus, você acredita que elas serão eficazes para conter a pandemia a curto prazo?

Sim, acredito. Este verbo porta o significado de crença. E eu aderi a essa crença por dois motivos. Porque eu desejo que a pandemia seja contida num prazo curto, desejo que menos pessoas adoeçam, desejo que a vida de todos volte ao próximo do que éramos acostumados. O segundo motivo é a existência de bastante ciência e tecnologia neste campo. E há também bastante incentivo financeiro e vontade política.

 

Para muitos dos nossos alunos de graduação, esta é certamente a principal crise sanitária pela qual passaram. Você acha que toda essa situação deixará marcas na formação dos novos profissionais de saúde?

Tenho certeza de que toda essa situação já está deixando marcas na formação dos novos profissionais de saúde. Para alguns, marcas profundas, para outros nem tanto. Mas todos os futuros profissionais, todos nós, bilhões de seres humanos, estamos mais conscientes da importância das instituições de ensino e de saúde, do meio ambiente, da solidariedade, dentre outros aspectos e características importantes para a saúde individual e coletiva.

 

Gostaria de deixar uma mensagem para a comunidade universitária?

Sim, eu gostaria muito, primeiro para a nossa reitora, a professora Lucia Pellanda, que personifica muito da integração dos aspectos de excelência profissional com as qualidades saudáveis maduras humanas de empatia, solidariedade, escuta, planejamento e ação. É complexo estabelecer um ambiente institucional em que correm juntos profissionalismo e bem querer e, por que não dizer também, amor a alunos e colegas professores. Sou muito agradecido a ela por isso.

A segunda mensagem é direcionada a toda a comunidade acadêmica, mas a mim mesmo também, pois preciso aprender e não apenas falar: coisas gigantescas têm um início pequeno, às vezes microscópico como o SARS-CoV-2. Algum humano resolveu interferir na natureza, em vez de cuidar, cultivar. Agiu de modo abusivo com animais, tirando eles e sua microbiota de seu lugar original e, por isso, o planeta inteiro está sofrendo as consequências.

Mas causa e efeito se sucedem não somente para eventos de desfecho desfavorável. Momentos de estudo devotado, momentos de ensino desapegado, esforço voluntário numa técnica num laboratório ou numa tese, um cuidado para com um paciente, todas essas coisas pequenas, feitas com boa volição, com persistência, paciência e determinação, também geram efeitos gigantes. Efeitos que mudam pessoas, e assim, o mundo.

A boa volição que se inicia "lá dentro", continuada através de ação é uma força poderosa. Já que sou infectologista, vou dizer que é também uma força contagiosa, que ultrapassa barreiras por vezes nunca pensadas, ultrapassa até gerações. Acho que esse momento de crises de todo o tipo nos "obriga", ou ao menos nos oportuniza buscarmos mais o cerne da vida, da razão, da ciência e dos valores humanos, principalmente aqueles que promovem a vida e a qualidade de vida para todos, sem acepção de qualquer tipo. Visivelmente a nossa universidade está trilhando e ao mesmo tempo abrindo esse caminho.